Bairros

Desperdício de comida chega a120 ton.

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Enquanto aproximadamente 80 mil pessoas passam fome em Bauru, toneladas de alimentos vão para o lixo diariamente. De acordo com um levantamento feito pelo projeto “Alimenta Bauru”, desenvolvido pelo diretor de Indústria e Serviço da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Domingos Malandrino, por mês, cerca de 120 toneladas de hortifrutis perdem o valor de venda nos supermercados da cidade.

Apesar de não haver um programa institucionalizado, uma boa parcela dessas mercadorias chegam a entidades assistenciais, que se mobilizam em busca de doações. No entanto, há uma infinidade de alimentos que vão diretamente para o lixo todos os dias. São laticínios, frios, lanches e comida pronta que não são consumidos dentro do prazo de validade e acabam sendo desperdiçados, mesmo estando bons para o consumo.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em todo o País, cerca de 60% dos alimentos adquiridos para serem consumidos vão para o lixo. Em restaurantes, bares e lanchonetes, a média de desperdício varia de 15% a 50%, segundo a entidade. Toda essa quantidade de comida, pelos cálculos da Abrelpe, daria para alimentar mais de 10 milhões de pessoas.

Pelo o que a reportagem do JC nos Bairros apurou, a situação não é muito diferente na cidade. Poucas são as iniciativas em prol do aproveitamento desses alimentos. A maioria da comida que ainda está em condições de ser consumida acaba indo parar na lata de lixo.

A Central de Abastecimento S/A (Ceasa) mantém um convênio com diversas entidades assistenciais de Bauru. Através dele, permite que representantes dessas entidades arrecadem doações junto aos permissionários (negociadores de hortifruti).

De acordo com Edson Antonio Guarido Ribeiro, gerente da Ceasa, na maioria das vezes, são doados produtos em bom estado de conservação. “Não existe muita sobra. Então, os permissionários acabam doando o que podem”, afirma Ribeiro.

Alguns supermercados fazem a mesma coisa. Selam uma parceria com entidades e fornecem determinados produtos - como verduras, legumes e itens de padaria - que já não estão mais em condições de comercialização.

Temendo alguma complicação judicial, restaurantes e lanchonetes preferem mandar para o lixo a comida que sobra diariamente. Em alguns casos, boa vontade até existe, mas o resultado de uma doação pode complicar a vida dos empresários.

Isso porque a legislação vigente acaba responsabilizando o doador pelo alimento fornecido. “No caso de acontecer qualquer problema, mesmo que seja no transporte do alimento, quem pode ser responsabilizada por isso sou eu”, diz Alzira Maria de Lourdes Borges, proprietária de um restaurante e de uma choperia em Bauru.

Ela salienta que até gostaria de fazer doações para quem precisa, mas tem medo de que algo possa ocorrer e prejudicá-la. “Já me orientaram a não fazer isso, pois poderia sobrar para mim”, destaca.

Cerca de 10% da comida vendida em suas empresas vão para o lixo. Para não perder totalmente, ela acaba entregando as sobras para um criador de porcos, que transforma a comida em ração animal.

Alimenta Bauru

Malandrino, desenvolveu, no ano passado, o Programa de Reciclagem de Alimentos “Alimenta Bauru”. A idéia, segundo ele, é organizar a doação dos produtos que são desperdiçados, criando uma rede que visa eliminar a carência das entidades sociais.

O projeto foi apresentado a órgãos públicos e à iniciativa privada, mas esbarrou numa questão delicada: falta de recursos.

Malandrino afirma que para manter o programa em funcionamento seriam necessários aproximadamente R$ 3 mil por mês, além do empenho do poder público e de empresas da cidade. “O programa está esperando alguém que queira encará-lo de verdade, bancar as despesas e levá-lo adiante”, afirma.

Ele diz que o projeto é uma das grandes frustrações da sua vida. “Não é algo difícil de ser implantado. Se todos se mobilizarem, funciona”, destaca.

Basicamente, o programa consiste numa arrecadação de alimentos inutilizados junto a empresas do ramo. De acordo com o projeto, a responsabilidade pela qualidade do alimento passaria a ser toda do programa.

A coleta seria feita por veículos da prefeitura municipal, que os encaminharia para uma central de triagem. Nesse departamento, um profissional de nutrição separaria os alimentos que ainda estão próprios para o consumo. A comida seria semi-processada por reeducandos do Instituto Penal Agrícola (IPA), que passariam por um treinamento para lidar com o trabalho.

Depois ficariam à disposição das entidades assistenciais, que poderiam retirar o alimento para o seu sustento gratuitamente. “Tenho certeza que isso acabaria com a carência de alimentos de todas as entidades sociais da cidade”, afirma Malandrino.

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