Bairros

Restaurantes temem fazer doação

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Para evitar possíveis problemas com a Justiça, donos de restaurantes e lanchonetes preferem jogar a comida que sobra no lixo ou doar para criadores de animais, ao invés de fazer doações para entidades assistenciais.

Isso porque, de acordo com a legislação federal, são os empresários que respondem civil e criminalmente pela qualidade do alimento que doam. “Já me avisaram para não fazer doação porque isso pode me complicar”, diz Alzira Maria de Lourdes Borges, proprietária de um restaurante e de uma choperia na cidade.

Ela comenta que fica com dó da quantidade de alimentos que diariamente sobra nas empresas. No entanto, teme ser prejudicada por algum possível problema com a comida doada. “Eu já pensei em fazer a doação. Mas tenho medo que a comida possa fazer mal para alguém devido à alguma falha no transporte e eu acabe sendo responsabilizada”, diz.

De acordo com ela, cerca de 10% do que é produzido no restaurante e na choperia acabam sendo inutilizados. “Muitas vezes servimos um prato a la carte e a pessoa nem mexe na comida direito. Temos que jogar fora”, salienta.

Para evitar o desperdício total, ela fornece os restos para um criador de suínos que vai até o restaurante buscar o alimento.

O problema é que grande parte dos alimentos que sobram são preparados, ou seja, têm mais chances de estragar. E isso poderia comprometer o trabalho dos empresários, pois qualquer denúncia os levaria a acertar contas com a Justiça.

Emerson Hortolan, franqueado de uma rede de fast food multinacional em Bauru, acaba seguindo os mesmos passos de Alzira. No caso dele, os lanches que não são vendidos vão direto para o lixo. “Eu acho que, se o produto não está bom para ser vendido, também não está bom para ser doado. Por isso, prefiro dispensá-los”, afirma.

Como possui um esquema de trabalho bastante controlado, que segue os padrões internacionais da empresa, Hortolan salienta que as perdas diárias na lanchonete são mínimas. “Giram em torno de 0,4%”, destaca.

Ele explica que tem uma expectativa de venda diária e que produz apenas uma parte dessa quantidade com antecedência. Os lanches, depois de prontos, são colocados em uma caixa e armazenados em uma prateleira, com placas identificando o momento em que ficou pronto.

O tempo limite para que o lanche fique no local, sem perder as suas qualidades básicas, é de dez minutos. Passado esse período, se o produto não for consumido, ele vai para o lixo. “Como as perdas são poucas, fica inviável doar. E eu acredito que, se não está bom para o consumidor, também não está adequado para doação”, afirma.

Abobrinha

Uma outra rede de fast food que tem uma loja em Bauru diz que o pouco desperdício que ocorre acaba indo mesmo para o lixo. O gerente do estabelecimento, Carlos José Martins, destaca que 99% da comida é preparada na cozinha central da empresa, localizada em Ribeirão Preto. “Só fazemos a massa da esfirra aqui. Quando ocorre de perder algo, é porque está totalmente impróprio para o consumo. Então, não doamos”, salienta.

Ele conta que a cozinha central da rede em São Paulo possui um projeto para reaproveitar boa parte dos alimentos preparados por ela.

Por mês, a empresa doa cerca de 7 mil toneladas de abobrinha para o programa Mesa SP, da Prefeitura Municipal de São Paulo, que atende famílias carentes do município.

Isso ocorre porque o prato feito com o legume é padronizado. Para fazê-lo, a empresa dispensa as pontas e o miolo da abobrinha. Antes, essas sobras iam para o lixo, mesmo estando em boas condições. Hoje são transformadas em alimento para pessoas carentes.

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Bom Samaritano

Desde 1986, está tramitando no Congresso Nacional um projeto de lei, de autoria da Federação do Comércio do Estado de São Paulo e do Serviço Social do Comércio (Sesc), que visa incentivar a doação de alimentos, principalmente por parte de lanchonetes e restaurante.

De acordo com a legislação, os empresários seriam isentos da responsabilidade civil e criminal que hoje têm pela doação. “O projeto não elimina a imputabilidade, mas resguarda os empresários de boa fé que, com honestidade de propósitos e dedicando as cautelas e cuidados mínimos indispensáveis, efetuem doação de alimentos”, diz a justificativa do projeto, denominado Estatuto do Bom Samaritano.

A proposta de mudança ainda está tramitando pelas comissões da Câmara dos Deputados em Brasília e não tem prazo para ser aprovada.

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