O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, disse que a entidade acredita no sucesso das propostas de Luiz Inácio Lula da Silva, mas que manterá uma posição de neutralidade diante do futuro governo petista.
Piva fez um balanço da situação econômica do País e falou das expectativas dos empresários paulistas durante entrevista coletiva concedida em uma sala de imprensa improvisada dentro do novo prédio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), na última terça-feira, em Jaú.
Além de Piva, esteve presente à solenidade de inauguração das novas instalações da escola o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo, Ruy Martins Altenfelder Silva.
Durante a entrevista, Piva insistiu na necessidade de mais ousadia por parte de empresários, parlamentares e governo. Na opinião de Piva, é preciso ter coragem para reduzir a taxa de juros, fazer as reformas tributária, previdenciária e trabalhista e investir na produção.
Questionado sobre a possibilidade de ser chamado para ocupar um ministério no futuro governo de Lula, afirmou: “Eu tenho mais utilidade na Fiesp do que lá, em Brasíliaâ€. Leia abaixo trechos da entrevista, que durou pouco mais de 15 minutos:
Imprensa - Do que irá depender o sucesso do futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva? Horácio Lafer Piva - Vai depender primeiro da agenda de prioridades para os temas que são fundamentais para o País. Em seguida, da credibilidade da equipe econômica que vai ser apresentada. E finalmente, da capacidade de criar uma coalizão partidária que lhe dê sustentação, na medida que o próximo governo não tem mais o instrumento das medidas provisórias.
Imprensa - O apoio da Fiesp ao futuro governo vai depender desses fatores? Piva - A Fiesp já está dando apoio ao governo. A Fiesp acredita e espera que o governo dê certo. A Fiesp vai manter a sua posição de órgão de pressão propositivo e construtivo, mas não de adesão. Nós estamos de mangas arregaçadas com este novo governo para conseguir viabilizar tudo aquilo que acreditamos como fundamental para o País. Principalmente, a disposição de recolocar a produção no centro da agenda de desenvolvimento.
Imprensa - O senhor acredita no pacto social proposto por Lula? Piva - Talvez, tão importante quanto o pacto seja a idéia do pacto. A negociação que está se fazendo nesse momento na busca para a construção desse entendimento. Eu acredito que o pacto que não tenha, de alguma forma, método, forma e tempo definido, tem muita dificuldade de se solidificar. Porém, eu acho muito positivo o desprendimento dos agentes econômicos e sociais de sentarem em torno de uma mesa para negociar avanços institucionais.
Vamos ver como eles vão administrar esta questão. Talvez esse grupo, que formaria o tal Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, tenha a função de contaminar positivamente o resto da sociedade e de ajudar a levar as questões para que sejam votadas no foro legítimo que é o Congresso Nacional.
Enfim, vamos manter a esperança e acreditar que a articulação entre governo, empresários e trabalhadores, avance. Estamos dispostos a construir uma nova fase de parceria positiva, em que você trabalha em cima de consensos, respeitando os dissensos.
Imprensa - O que está faltando, na iminência do pacto, para que a mentalidade se volte para o aumento da produtividade e não simplesmente para o aumento da lucratividade dos bancos. Piva - Em primeiro lugar, nós levamos um grande choque de realidade nesses últimos anos. Quando começamos a perceber que estamos funcionando como retardatalhos da competitividade. O Brasil não é mais um País fechado em suas próprias fronteiras, mas que opera numa arena que é mundial.
A globalização é inexorável. Ela não tem volta. Porém, ela está sem norte e sem bússola. Nós precisamos definir o que queremos, quais são nossos planos de desenvolvimento e o que nós entendemos como um projeto para o País. Ou seja, se ele quer ser industrial, comercial, agrícola, importador ou exportador.
Hoje, nós temos uma política econômica que beneficia o sistema financeiro. Ele tem tido lucro não por ser esperto, mas porque nós temos uma política que acaba gerando esse tipo de situação.
Imprensa - Na opinião do senhor isso precisa ser revisto? Piva - Para mim, está muito claro que nós precisamos repensar toda essa questão. A oportunidade de exportar para novos mercados do exterior, acaba favorecendo a promoção de novas empresas com condições de vender ser produto lá fora.
E esses novos mercados não precisam necessariamente ser apenas da Europa ou dos Estados Unidos. Nós precisamos criar no Brasil os capitais de risco que possam fornecer a esses empreendedores a oportunidade de crescer. No Brasil, da maneira como é hoje, nós jamais teríamos a chance de ver um Bill Gates surgir, porque ele jamais encontraria apoio financeiro para isso.
Os banqueiros sabem que para poder diminuir as assimetrias em relação aos seus competidores internacionais vão ter de financiar mais a produção. E certamente os empresários vão ter de se aplicar ainda mais na lição de casa.
Imprensa - Mais de 1,5 milhão de jovens chegam anualmente ao mercado de trabalho e o País não está crescendo economicamente para absorver toda essa mão-de-obra. Como fazer com que isso mude? Piva - Se não voltarmos a crescer algo em torno de 4,5% ou 5% ao ano, além de não absorver esses jovens, não vamos conseguir resolver o problema daqueles que perderam seus postos de trabalho, nos últimos anos.
Eu acredito no desenvolvimento, que é o crescimento com justiça social. Isso significa crescimento econômico, mas também um maior ativismo público para que se tenha políticas que possam enfrentar essas questões. A solução passa pela qualificação da mão-de-obra, pela formalização daqueles que trabalham hoje na informalidade e pela abertura de novos nichos de mercados. É preciso também aproveitar melhor o potencial de consumo que nós temos dentro do Brasil e, principalmente, estimular a volta do círculo virtuoso.
Imprensa - O que é o círculo virtuoso? Piva - Quanto maior for a oferta de emprego maior será o consumo. E o consumo gera mais produção, que gera mais investimento, que, por sua vez, abre novos empregos. É assim que funciona o círculo. E nós só vamos resolver os problemas desse País através dos virtuosos caminhos da produção e não pelos tristes atalhos da recessão.
Razão pela qual eu tenho dito sempre que nós precisamos ser ousados. Ter a coragem de reduzir a taxa de juros e fazer as reformas. Principalmente, a tributária, previdenciária e trabalhista.
Imprensa - O senhor acredita que a geração de emprego passa pela redução da jornada de trabalho? Piva - A flexibilização das relações trabalhistas, levando em consideração que o negociado vale mais do que o legislado é o caminho para que tenhamos sim a criação de mais postos de trabalho formais.
Imprensa - Fala-se no seu nome como possível ministro do governo Lula. Como o senhor encara isso? Piva - Eu tenho muito mais utilidade como um interlocutor do lado de cá, ajudando o governo a conversar da maneira mais operacional e produtiva possível com a classe empreendedora, do que lá em Brasília.
Imprensa - A Fiesp, há alguns anos, falou na descentralização de investimentos dos grandes centros para o Interior. Na nossa região não há grandes investimentos previstos e não houve nos últimos anos. O senhor ainda acredita nessa descentralização? Piva - Certamente que sim. Os investimentos não aconteceram aqui como também não aconteceram em outros lugares. Os poucos que foram feitos, foram parar naqueles locais que usaram do instrumento da guerra fiscal, com a qual não concordamos, para atrair investimento oferecendo vantagens que podem funcionar a curto prazo, mas são problemáticas a médio e longo prazo.
Eu tenho absoluta consciência de que, cada vez mais, a vocação da Grande São Paulo é para a prestação de serviços e para o comércio. O Interior, onde temos as melhores rodovias e uma melhor qualidade de mão-de-obra, vai acabar atraindo sim os investimentos produtivos.
Principalmente, aquelas regiões que tenham vocações muito bem definidas. Como, por exemplo, a região de Jaú, onde há uma vocação na área de calçados, que é um produto que tem uma extraordinária possibilidade de alavancar nossa exportação. Pode esperar que os investimentos vão chegar. Se o Brasil crescer, regiões como essa e principalmente o Estado de São Paulo têm muito a ganhar.