Regional

Livro resgata passado de Gália e Fernão

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 8 min

Michelle Roxo

Gália - Pensando no resgate da história das pequenas cidades de Gália e Fernão, as professoras aposentadas Maria Zeila Sellani Pontes, 65 anos, e Rosemari Gattás Barnezi, 59 anos, lançam no próximo dia 7, na biblioteca municipal da cidade, o livro “Doces Lembranças de Outrora – Povoamento do Vale das Antas (1845-1950) – Gália e Fernão Dias”. A obra reconstituiu parte da história das duas cidades, através de documentos e da reunião de depoimentos de cerca de 200 famílias.

Apresentado em ordem cronológica e com riqueza de detalhes, o livro exigiu das autoras um disciplinado trabalho de pesquisa, que começou há cerca de seis anos. A obra é a primeira que resgata um amplo período da história da região conhecida como Vale das Antas. Até então, segundo Rosemari, a história oficial começava no início do século XX e a única fonte mais detalhada que se tem registro é o “Álbum de São José das Antas”, de Eduardo Ranieri – que relata o período de 1924 a 1926. “Quando eu comecei a escrever não tinha quase nada, começava numa data muito recente, depois eu fui descobrir que aqui tinha povo desde 1845”, explica Rosemari. “Foi um trabalho árduo. Às vezes, em casa, eu estava com aquele monte de volumes da prefeitura e eu ia lendo um por um. Foi um trabalho de formiguinha”, avalia a autora.

Segundo Zeila, no início do processo de pesquisa não havia pretensão de transformar o material em um livro. “Nós tínhamos a intenção de colocar o trabalho na biblioteca, não era para editar um livro”, confessa. No entanto, o processo tomou fôlego, superou as expectativas e ganhou potencial para se tornar uma obra de 370 páginas, com edição de 500 exemplares. “Quando nós começamos a escrever sobre a cidade, nós percebemos que, apesar de ser uma cidade pequena, Gália tem uma história muito rica. Nós fomos ficando entusiasmadas e começamos a escrever. Fizemos sem nenhuma pretensão, aconteceu”. Zeila esclarece que no período abordado pela obra, a então Fernão Dias, hoje conhecida apenas como Fernão, ainda era um distrito de Gália. A pequena cidade, atualmente com 1.500 habitantes, tornou-se município somente em 1997. A vizinha Gália possui 7.848 habitantes, de acordo com dados da prefeitura.

Segundo as autoras, até o resultado final do livro, foram anos de coleta de jornais e escrituras na biblioteca municipal, no cartório, na igreja e prefeitura da cidade, além do contato com os moradores e descendentes das primeiras famílias locais. Esse fato permitiu que o livro fosse construído não apenas a partir de documentos oficiais, mas também através do relato subjetivo das famílias. “Foi muito bonito, porque nós procuramos as famílias e também escrevemos um questionário para as pessoas que moram fora, e todos eles prontamente responderam. Inclusive eu fui em determinadas casas aconselhada por outras pessoas que me diziam: ‘vai naquela casa, que ali mora uma família antiga’. E foi emocionante eu chegar na casa da pessoa e ela falar para mim ‘puxa dona Zeila faz tanto tempo que eu espero a senhora na minha casa’, e vinha com o papelzinho prontinho com a historinha deles, foi muito prazeiroso”, avalia Zeila.

Apesar do livro ter sido constituído a partir de diferentes vozes, Zeila afirma que pode ser observada uma unidade no discurso dos moradores. “Todas as histórias são muito interessantes. Cada família contou a parte dela, o que toca para ela, agora, todos vieram para cá com o mesmo ideal, de trabalhar, ganhar dinheiro, formar e educar a família, enfim, você nota em todos eles a mesma coisa. E outro aspecto muito interessante é que todos amam a cidade, todos dizem que querem morrer lá”. A autora ressalta que grande parte das famílias antigas de Gália já não moram mais no local, mas participaram do processo de depoimentos respondendo a questionários.

Segundo Zeila, a finalização do trabalho só foi possível devido à ajuda financeira dos moradores da cidade, que patrocinaram a obra. “Nós fizemos o livro graças a colaboração de vários moradores. A cidade se mobilizou para esse livro acontecer. Nós fomos muito estimuladas”, comemora. Para Rosemari, existiu uma vontade, um empenho por parte dos moradores no resgate da história. Ela acredita que o número de exemplares (500) não será suficiente para tanto interesse. “A cidade está tendo uma motivação em participar disso. Eu acho que esses livros vão ser poucos”, conclui.

Lançamento

De acordo com as autoras, toda a renda arrecadada com a venda do livro será doada para o Fundo Social de Solidariedade do Município e ao Centro Espírita Amor, Verdade e Caridade. O lançamento e a tarde de autógrafos será no próximo dia 7, das 15h às 19h, na biblioteca municipal. Cada exemplar será vendido a R$ 15,00. Junto ao lançamento do livro será aberta uma exposição com cerca de 300 fotos, que retratam o passado de Gália e Fernão.

O processo

Rosemari nasceu em Marília e vive em Gália desde 1979. Zeila nasceu em Pompéia e morou durante 26 anos em Gália. As escritoras são amigas de longa data. Foram vizinhas e trabalharam na mesma escola da cidade na década de 80, época em que o trabalho de pesquisa começou a ser idealizado. Na prática, a obra - a primeira publicação das professoras - começaria a ganhar corpo apenas em 1997.

Há cerca de 15 anos, Rosemari já havia iniciado um trabalho de coleta sobre a história da cidade. “Eu havia escrito um resumo da história de Gália para a Academia de Letras Municipais do Brasil e a Zeila, que era professora na minha escola, queria fazer a história das famílias, mas a gente nunca tinha conversado sobre isso, eram projetos separados. Um dia conversando eu vi que nós poderíamos nos unir. Então nos unimos. Nós começamos a pesquisar os endereços dos antigos, fomos mandando questionários e depois fomos colhendo os depoimentos das pessoas, e no fim fizemos a redação em conjunto.”

A autora afirma que a importância do livro está na recuperação de dados históricos. “A história estava em branco, porque começava com Galdino Manoel Ribeiro, Manoel Laureano, Eduardo Souza Porto, mas eles pertencem a uma história recente. Antes deles já tinha gente no Ribeirão Vermelho, no Rio São João, no Rio Feio”. Segundo Rose, a história da cidade tem raízes anteriores a 1845, mas foi somente a partir dessa data que foram encontrados registros e documentos que comprovam a existência de habitantes na região. A autora justifica também o porquê de ter escolhido delimitar o período até 1950. “História você tem que contar depois de 50 anos ou 1 século. Tem que ter um certo distanciamento.” Apesar do trabalho minucioso que foi desenvolvido, as autoras acreditam que a obra é apenas um começo, uma base para novas pesquisas. “Para ser completo falta muita coisa que ainda se encontra escondida nas dobras do tempo”, registram.

No tempo das lembranças

O aposentado Carlos Rubens, 87 anos, é considerado um dos mais antigos moradores de Gália. A riqueza de sua memória foi uma das fontes para as autoras do livro, no processo de reconstituição da história. Acompanhado de sua esposa, Maria Edenir Martineli, 67, Rubens conta que recebeu várias visitas da professora Rosemari.

Apesar de não ser natural de Gália, Rubens chegou na cidade ainda menino, com apenas 13 anos. “Eu vim para cá com minha família no dia 13 de dezembro de 1929”. Sua mãe era costureira e seu pai um comerciante da família Quirilos.

O morador trabalhou no escritório da “companhia dos ingleses” na década de 30 - famosa fazenda de famílias da Inglaterra, que ocupa um lugar de destaque na memória dos antigos moradores de Gália. Depois disso, Rubens trabalhou no cartório da cidade e foi durante muitos anos funcionário público.

Testemunha ocular da história, Rubens acompanhou o desenvolvimento de Gália e Fernão Dias. Como tempo áureo, o morador aponta a época em que a cidade se firmou como um dos maiores centros mundiais de cultivo de bicho da seda, no final da década de 30. Segundo ele, esse foi um período de grande desenvolvimento. O morador, que afirma recorrer freqüentemente às lembranças do passado, considera a Gália de ontem uma cidade mais atraente. “Tinha mais dinheiro, mais alegria e mais diversão. Havia uma sociedade melhor e bem unida”. Para ele, a memória desse passado ocupa um lugar de destaque em sua vida. “Eu tenho muita saudade de tudo isso. Representa muito para mim.” Rubens avalia que o trabalho das escritoras de resgatar o passado é de extrema importância para a cidade. “Eu acho que é uma necessidade. Precisa, principalmente para as escolas, para as crianças das escolas, contar a história de Gália. Tem uma importância grande para as futuras gerações”. Para a esposa Maria, o livro é uma forma de reviver. “Certamente com o livro a gente vai reviver muita coisa do passado, até coisas que eu não sei ainda, que são coisas mais antigas do que eu”.

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