O PSDB vai colaborar com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na aprovação de reformas estruturais para o País. A informação é do presidente nacional do partido, deputado José Aníbal. Ele garante que os tucanos vão fazer uma oposição qualificada realizando a discussão das propostas a serem apresentadas pelo novo governo e discutindo ponto a ponto as reformas.
Aníbal pondera, entretanto, que os petistas já tomaram conta de que o diagnóstico real do governo é diferente do discurso de oposição que vinha sendo repetido até o último dia 6 de outubro, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito com mais de 50 milhões de votos pelos brasileiros.
Leia a seguir os principais pontos da entrevista com José Aníbal que esteve ontem em Bauru para participar do Fórum Regional Permanente de Desenvolvimento Econômico e Social:
Jornal da Cidade - A experiência no Congresso faz o senhor esperar o que do governo Lula? José Aníbal - Acho que se pode ter uma boa expectativa, até porque o presidente eleito teve uma votação expressiva e isso significa apoio popular com mais de 50 milhões de votos. E da eleição para cá as pesquisas mostram que cresceram as expectativas de que ele realizará um bom governo. Quanto ele realizará nós não sabemos ainda. Mas eu tenho observado no PT e na equipe de transição do partido um cuidado em fazer um bom diagnóstico do país e não mais um diagnóstico de palanque, de oposição. Nós esperamos do Lula um governo que não vai instabilizar a política econômica.
JC - E qual o diagnóstico real que está sendo detectado pelo PT? Aníbal - O PT aponta para um diagnóstico verdadeiro do Brasil, um país que avançou muito em alguns pontos fundamentais e que precisa continuar esse processo com estabilidade econômica, controle da inflação e moeda forte. Um Brasil que evoluiu na rede social, que tem grande vitalidade para gerar superátiv comercial, tem credibilidade externa. O que eu espero do governo Lula é um grande compromisso com as reformas. Aliás o presidente eleito disse isto, que as reformas tributária, previdenciária, trabalhista, sindical e política serão feitas por ele. O quanto vai fazer de reformas também não sabemos.
JC - E qual será o papel do PSDB nesse movimento de reformas? Aníbal - E nós do PSDB seremos um partido disposto a compartilhar esse movimento reformista. Afinal as reformas no país são a nossa cara. Nós reformamos muita coisa no Brasil nesses anos e permitiu ao Brasil recuperar o seu rumo. DE modo que a nossa oposição será sempre responsável, como é o PSDB. E será uma oposição qualificada. Nós vamos trabalhar sobre a agenda do novo governo e também trabalhar com a nossa agenda para o país. Vamos fazer um bom debate, democrático.
JC - Além da moeda e da economia, que pontos o senhor cita como necessários de serem mantidos no próximo governo? Aníbal - Hoje, independente de governo, a responsabilidade fiscal é uma conquista da sociedade brasileira que não quer mais um governo que gasta mais do que arrecada. Este é um ponto fundamental que deve ser levado à risca por qualquer governo hoje. O Brasil tem credibilidade porque administra suas contas e paga em dia seus compromissos lá fora. A manutenção de uma moeda que resiste à inflação também é um ponto fundamental entre alguns que poderiam ser citados. E o compromisso com a rede de proteção social é importantíssimo e o presidente eleito já citou o projeto Fome Zero que vem nessa direção. O novo governo não vai andar para trás nessas questões. A universalização do ensino básico é outro ponto.
JC - Como o senhor pontua a referência à inflação de dois dígitos e a relação de juros que voltou a subir? Aníbal - Nós tivemos um ataque fortíssimo sobre o Real ao longo desse ano. Não foi por acaso que a taxa de câmbio se elevou a R$ 3,60 por dólar e um determinado momento. Agora baixou, mas ainda não reduziu o suficiente e isso acaba tendo impacto sofre os preços internos. Por exemplo, o trigo é quase todo importado e o dólar mais caro encareceu a farinha de trigo e o pão. E os itens do exterior que compõem produtos fabricados no Brasil também tiveram esse impacto. Há uma certa contaminação sobre o Real quando isso ocorre. Mas esse movimento já está sob relativo controle e acredito até em queda do dólar. E por isso mesmo, acredito que a inflação será de um dígito apenas em 2003.
JC - Como o senhor viu a reunião dos governadores tucanos com o presidente eleito? Aníbal - Acho que a reunião dos governadores entre si foi muito importante porque eles puderam qualificar algumas propostas que apresentariam ao novo governo e foi muito bom que o Lula se propôs a conversar desde já. Um dos pontos apresentados foi a Lei Kandir, que tira impostos das exportações - ICMS para exportação agrícola e bens de capitais - e há uma compensação para os Estados que perderam receita com a lei. Mas essa compensação está sendo reduzida a 1/4 em 2003 do que foi neste ano. E isso afeta muito os Estados. Izzo reduz R$ 3 bilhões da receita dos Estados. É uma perda muito grande. E os governadores apresentaram essa preocupação ao novo governo. Agora, tivemos uma conversa com o deputado federal José Dirceu (PT) e eu insisti com ele para a necessidade de compensação da Lei Kandir através de suplementação orçamentária. Nós discutimos a vinculação de novas receitas que estão previstas no orçamento de 2003 com a suplementação da Lei Kandir. O PSDB, que vai governar 46% da população do Brasil e 52% do Produto Interno Bruto (PIB) com sete governos importantes, com sua bancada, com o partido, conseguirá um desempenho forte. O PSDB tem muita vitalidade e sintonia entre os que detém mandato e o partido.
JC - O que o homem público José Aníbal vai realizar a partir de fevereiro de 2003? Aníbal - O meu mandato de deputado federal se encerrará em 31 de janeiro de 2003 e eu vou continuar comandando o partido até maio. Eu faço política há 30 anos e independente de mandato. Tenho vocação para a vida pública. O crédito que tive do povo de São Paulo nessa eleição para o Senado foi espetacular. Eu trabalhei só dois meses e meio da campanha, a partir da segunda quinzena de julho, e obtive 5 milhões de votos. Só tenho a agradecer aos paulistas e por isso estou aqui em Bauru também. Não chegamos mas não podemos nos sentir derrotados. Foi uma votação muito expressiva. O que vai acontecer a partir de janeiro nós vamos saber só em fevereiro. Neste momento estou trabalhando para municiar o partido para coloca-lo nessa nova posição de oposição qualificada.
JC - O PSDB vai impor uma lição ao PT ao fazer uma oposição qualificada? Aníbal - Acho que sim sob o ponto de vista de postura. Porque nós do PSDB realmente faremos o que for melhor para o País. Nós faremos uma boa ação de compartilhamento das reformas porque isso é muito importante para o país continuar avançando. Nós não vamos fazer com o PT o que eles fizeram conosco que é o de buscar palanques e holofotes para criticar por criticar.
JC - O senhor vê tolerância na população em torno da esperança construída em cima do Lula? Aníbal - Isso depende de como eles vão administrar. O PT defendeu um salário mínimo de US$ 100 que hoje seria R$ 350,00. Nós melhoramos o salário mínimo, mas por conta de taxa de câmbio não está nem perto dos US$ 100. Veja, ficavam falando que o problema da universidade público no país era só recursos e não é. Agora eles estão tomando conta com a realidade. Vão descobrir que a fórmula para as universidades não depende exclusivamente do financiamento pelo governo. Já estão dizendo que não farão algumas coisas. A esperança criada em torno do governo Lula vai depender muito das ações do governo. Espero que o brasileiro tenha uma boa tolerância com o governo e que o jogo seja o da verdade para que o ambiente seja de avanço. O PT vai começar a trabalhar já em 1º. de janeiro, porque o governo Fernando Henrique proporcionou de forma madura o governo de transição. Isso tem sido extraordinário, com todas as informações franqueadas.
JC - Que visão o senhor tem para a criação do Fórum regional em Bauru e os quatro anos do governo Alckmin? Aníbal - Vejo de forma muito positiva, porque é uma ação de convergência. O governador Alckmin é muito tolerante e sabe ouvir as vozes do Interior. E o que está sendo feito aqui hoje é um passo para a identificação dos obstáculos e das vocações da região para que isso, depois, seja colocado na mesa do governador para que se tenha um plano do que pode ser feito. E isso está sendo criado aqui em Bauru com o aval de uma liderança regional que se fortaleceu, o deputado Pedro Tobias. A população dessa região foi muito sábia ao fortalecer o mandato do Pedro Tobias junto ao governo do Estado.