Longe de nós a intenção de nos constituirmos em desmancha-prazeres. Ocorre, porém, que após os oito anos de governo anti-nacional que agora vai chegando ao fim, é inegável o clima de esperança que a índole do nosso povo, tão freqüente e insistentemente traído, alimenta agora, em nível que, infelizmente, não encontra apoio na realidade concreta. Não que estejamos desejando comparar o governo que entra com o que está saindo; tudo indica que o primeiro, pelo menos, é um governo brasileiro, afinado, mais ou menos adequadamente, mas afinado basicamente, com o sentir do nosso povo generoso e pacífico. Não; do que se trata é da herança maldita que foi sendo acumulada, não de apenas oito anos a esta parte, mas que foi dramaticamente agravada nesses referidos oito anos. As nossas dívidas externa e interna atingiram patamares absolutamente insuportáveis e incompatíveis com os investimentos minimamente indispensáveis à retomada do crescimento econômico, com a conseqüente redução da obscenidade do desemprego e o aumento da poupança interna.
O governo que entra, mais brasileiro e afinado com a nossa gente, nasce agrilhoado com compromissos colossais que, de público, já foi levado reiteradamente a afirmar que “honraráâ€. E muitos de nós não nos damos conta de que estaremos nos sentindo obrigados a “honrar†compromissos perante quem, da maneira mais desabusada, gigantesca e planetária os desonrou. Estamos nos referindo à resposta dada pelo governo dos EUA ao governo francês, quando este, em 1961, na pessoa de Georges Pompidou, solicitou a troca dos dólares de que a França dispunha, pelo ouro correspondente a eles, que se supunha guardados em Fort Knox. E a resposta do governo americano ou, melhor, do governo dos EUA foi, simplesmente, que o referido ouro não estava disponível. A esse monumental calote, de dimensão planetária, a grande mídia não chamou calote e, menos, desonra a compromissos assumidos. Chamou-o apenas, e eufemisticamente, de “quebra do padrão ouroâ€. E o dólar continuou a ser o padrão referencial monetário mundial, na conformidade do que fora estabelecido na Conferência de Bretton Woods, quando ia chegando ao final a 2.ª Grande Guerra. Naquela ocasião, presumia-se que, a cada dólar correspondia uma certa quantidade de ouro, guardada em Fort Knox, compromisso que 12 bancos, todos particulares, haviam assumido em 1913 para obter o privilégio de emitirem a moeda norte-americana.
Veio em seguida a 1.ª Guerra Mundial, depois a 2.ª e, em 1961, Georges Pompidou solicitou a troca dos dólares que a França possuía pelo ouro que o mundo supunha guardado em Fort Knox.
A despeito do monstruoso calote, continuou a prevalecer o acordado em Bretton Woods, e o mundo continuou a ter como referencial monetário uma moeda cujo único lastro consiste no poderio militar americano e na capacidade de exercer sanções econômicas dos Estados Unidos, tudo ao sabor e segundo os interesses, voltamos a repetir, dos acionistas majoritários, de 12 bancos particulares. Parece fantástico, mas é rigorosamente, e indiscutivelmente, verdadeiro.
E é a essa gente que todos os povos emergentes devem continuar a curvar-se e a “honrar†os compromissos assumidos os quais, inclusive em nosso caso, inviabilizam os investimentos necessários ao nosso progresso e à erradicação da vergonhosa miséria, presente no País talvez mais rico do mundo, como é o Brasil.
Que Deus ilumine e dê forças aos nossos governantes, pois o mundo está mudando e muito mais rapidamente do que a maioria supõe. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC)