O uso de entorpecente é um dos agentes desencadeadores dos desentendimentos familiares. Mas não é o único problema, na opinião da psicóloga Andréia George’s. Ela acha que a superproteção dos pais atrapalha a educação dos filhos (leia mais nesta página). Anteontem à noite, mais um caso de filho que agrediu a mãe e a irmã foi registrado em Bauru.
A agressão ocorreu no Núcleo Nova Bauru. Maria de Lourdes Silva foi agredida pelo próprio filho, Ezequiel Aparecido Silva, 23 anos, que também feriu sua irmã, Selma Aparecida Silva.
Maria declarou à polícia que seu filho é viciado em drogas. Quando drogado, contou ela, ele costuma pedir dinheiro a ela. Se não é atendido, fica exaltado, quebra objetos da casa e agride seus familiares.
Na noite de anteontem, mais uma vez ele procurou a mãe, uma mulher de 65 anos, que estava na casa de sua filha, no mesmo bairro. Após discussão, o rapaz quebrou uma garrafa térmica e com uma faca ameaçou a mãe e a irmã, que ficaram levemente feridas.
Duas horas depois, Ezequiel foi atingido por alguns disparos de arma de fogo. Os ferimentos atingiram o rapaz na cabeça, no braço e no antebraço direito. De acordo com ele, os tiros foram disparados por um amigo de seu irmão.
Ezequiel contou para a polícia que devido o desentendimento entre sua mãe e irmã, seu irmão discutiu com ele e chegou a ameaçá-lo com uma arma de fogo. Um amigo do rapaz teria tomado a arma e atirado, ferindo-o levemente.
Desistência
Mais de 80% dos casos de desentendimentos entre familiares registrados no 1.º Distrito Policial de Bauru não seguem para investigação a pedido das próprias partes, explica o titular da delegacia, Ronaldo Divino. “A vítima registra, mas depois se arrepende porque é da mesma famíliaâ€, diz.
Ele acredita que 80% dos casos não prosseguem na Justiça. “O crime exige representaçãoâ€, frisa. Divino ressalta que os casos que chegam à delegacia são de agressões entre irmãos e pai e filho. “Os casos em que a mulher é vítima vão para a Delegacia de Defesa da Mulherâ€, frisa.
O titular do 2º Distrito Policial, delegado Antônio Carlos Piccino Filho, diz que o número de desentendimentos entre famílias não chega a preocupar. Ele aponta o alcoolismo como a principal causa das brigas. “A bebida faz com que algumas pessoas se tornem agressivasâ€, frisa.
Os desentendimentos em família, explica ele, raramente geram agressões graves. “Tivemos um caso de um tio que brigou com o sobrinho e fez disparos contra a porta de um quarto, sem atingi-loâ€, lembra.
Piccino acha que, além da bebida, o descontrole social e drogas como o crack e a maconha contribuem para os desentendimentos familiares.
Disputa de bens
Na zona sul da cidade, área do 3.º Distrito Policial, as brigas em família são decorrentes do uso de drogas, partilha de bens e dinheiro. O titular do 3º DP, delegado Marcelo Nagib Haddad, lembra que na região existem três favelas, porém o maior número desse tipo de ocorrência envolve pessoas das classes média e média/alta.
“As brigas em família ocorrem em todas as camadas da populaçãoâ€, destaca.
Na área do 4.º Distrito Policial, segundo o delegado Marcos Cremonesi, titular do DP, são raros os casos de desavenças entre famílias. “Tivemos alguns casos de brigas entre irmãosâ€, diz.
____________________
Superproteção
A agressividade dos jovens contra os pais pode ser resultado de erros na educação dos filhos, explica a psicóloga Andréia George’s. “Os pais superprotegem e não deixam que os filhos passem pelas frustrações. A frustração faz parte da estruturação da personalidade da criançaâ€, diz.
O reflexo direto é a perda da noção de limites. “A criança cresce sem noção de limites e, quando adulto, não só é capaz de agredir os pais como pode matá-losâ€, alerta.
Ela aconselha os pais a repensarem a educação de seus filhos. “Com muito amor é preciso educá-los para a vida. O adulto que ultrapassa seus limites necessita de tratamento psicológico para se reestruturar. Ter noção de si e do mundoâ€, afirma.