Pesca & Lazer

Medo e emoção nas cavernas do Petar

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 3 min

“No meio da trilha, percebi que estávamos perdidos quando vi o Marcelo e o Kinha com os bolsos cheios de espigas de milho verde, previnidos para uma eventual fome. Bom, se eles, que são ‘cavernosos experientes’, estão pegando até milho verde é porque a coisa está ‘feia!’”, pensei e gelei!

Em uma viagem de turismo às cavernas do Vale do Ribeira, um grupo de visitantes (no qual me incluo) perdeu-se na mata e passou por uma série de dificuldades. O engraçado é que nessas horas tudo se modifica, o perto parece distante, às vezes impossível, e até um amigo, com os bolsos cheios de espiga de milho parece assustador.

Para quem não conhece, o Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar) está localizado na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, na região dos municípios de Apiaí e Iporanga. A atração do Petar são suas cavernas, em número superior a 200, em meio à Mata Atlântica, com formações singulares.

É comum grupos de ‘cavernosos’ de todo o Estado de São Paulo invadirem a região nos finais de semana e feriados. Eles caminham por toda parte, principalmente no Núcleo Santana, onde encontram-se belas cavernas (Santana, Morro Preto e Água Suja) e cachoeiras. Porém, há grupos que se aventuram sem o acompanhamento de guias locais, o que é muito arriscado.

Em 31 de março de 1994, participei de uma aventura histórica no Petar. Eu e mais quatro amigos (Sérgio Coutinho Anacleto, o ‘Kinha’, Marcelo Martins, Michael e a francesa Carol) saímos de São Carlos e seguimos ao Parque para conhecer a Casa de Pedra, caverna que possui um dos maiores pórticos (entrada) do mundo, com 215 metros.

Localizada em Iporanga, a Casa de Pedra atrai os visitantes pela sua beleza interior e também pela trilha, no coração da Mata Atlântica. Até chegar na primeira entrada, foram duas horas de caminhada. O grupo subiu, desceu, se esgueirou, nadou e atravessou a caverna com poucas dificuldades. Em alguns momentos, pausa para observar a beleza e sentir o peso da escuridão.

Concluída a travessia, finalmente o grupo encontrou a grande boca da Casa de Pedra. Nos seus 215 metros, um lugar fantástico, impossível de se fotografar por completo. Pausa para alimentação: lanchinhos, cereais, chocolate e muita água. Preparados, era chegada a hora de retornar, nesse momento o sol já baixava e o relógio marcava 16h. O indicado seria voltar pelo mesmo caminho, ou seja, pelo interior da caverna. Porém, Carol havia caído e não queria voltar pela caverna, sentia dores nas costas.

O retorno pela trilha, muito mais longo e desconhecido, seria um desafio, difícil de descrever. No início, um grupo de espeleólogos (estudiosos de cavernas) sinalizou o caminho, mas em um determinado momento, talvez após umas quatro horas de caminhada, não era mais possível encontrar seus sinais. Dali para frente tudo correria sob a responsabilidade do grupo.

Marcelo Martins liderava a equipe, que encontrava vários obstáculos, como a chuva constante (não esqueço o barulho da chuva batendo no capacete) e as enxurradas, que confundem as trilhas e convidam para tombos engraçados e, muitas vezes, doloridos.

O curioso dessa aventura é que você começa a avaliar o seu equilíbrio emocional. ‘Sabe aquela sensação de estar perdido na selva!’, é isso que a gente sente, ‘será que vou sair dessa?’. O equilíbrio do guia foi fundamental, mesmo assim, houve crises de choro, angústia, e até de risos. É fácil perder a noção das coisas em momentos como esses.

Felizmente, a história teve um final feliz. Após uma caminhada pela mata de mais de nove horas, uma casa no meio da mata foi a salvação. Uma família de agricultores nos acolheu, alimentou e nos deu um cantinho, no chão mesmo, ao lado do fogão a lenha, para nos aquecer. No dia seguinte, com direito a guia local, o grupo retornou ao rancho após mais três horas de caminhada. Exaustos, famintos, mas felizes.

Foi quando encontramos uma equipe de resgate, que já seguia para a Casa de Pedra à procura dos ‘perdidinhos’.

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