Enquanto as empresas do setor alimentício de Bauru desperdiçam cerca de 120 toneladas de alimentos por mês, aproximadamente 18 mil pessoas passam fome na cidade. São famílias que vivem com uma renda mensal de R$ 75,00, dinheiro que não é suficiente nem para as despesas básicas.
Os dados são da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), que diz ainda que 25% da população do município vive abaixo da linha da pobreza, ou seja, com uma renda de cerca de US$ 2,00 (padrão mundial para determinar essa característica).
Sem alternativas para se alimentar, já que não existe um programa que incentive o reaproveitamento de alimentos e as doações por parte de empresas do setor, muitas dessas famílias encontram no lixo a maneira de completar as refeições diárias.
De acordo com o presidente da Associação de Carroceiros da Zona Leste, Aparecido Quirino Claudio, boa parte dos moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima tem no lixo a sua fonte de sobrevivência. “As pessoas saem em busca de materiais recicláveis para vender, mas, se encontram algo comestível, elas levam para casaâ€, garante Claudio.
Segundo ele, as pessoas geralmente não levam em consideração o perigo que estão correndo ao ingerir algo contaminado. “A fome é muito grande e não tem como ficar analisando os alimentosâ€, afirma.
A catadora de papel Aparecida Barsotti é um exemplo. Com 64 anos, ela e o marido, Sebastião Aparecido Alves, 33 anos, saem de casa todos os dias por volta das 7h sem destino certo. O objetivo é revirar os lixos da cidade em busca de algo que sirva como moeda de troca (plástico, papelão, jornal, etc.). Se entre esses materiais estiver uma fruta, um legume ou um pacote de bolacha, o dia está ganho, segundo Aparecida.
Ela salienta que o que encontra vai direto para a sua mesa. “Dou graças a Deus quando acho alguma coisa para completar a comida lá de casaâ€, destaca.
A família de Claudete Sicilin Bernardes, 43 anos, também retira do lixo muitos alimentos que vão para a mesa. “A gente encontra frutas, legumes, iogurte, bolacha, pacote de macarrão, várias coisas que servem para completar o que naõ se pode comprarâ€, explica.
Na casa dela moram 14 pessoas, sendo seis crianças. Ela diz que ninguém nunca passou mal por ingerir esse tipo de produto e que não tem outro meio de conseguir o que comer. “Nós não temos ajuda de ninguém. Acho que estamos abandonadosâ€, salienta.
Creches
Embora alguns supermercados e centrais de distribuição de alimentos tenham dito que doam os hortifrutis que não estão em condições de venda para creches e instituições da caridade, o sistema acaba não atingindo uma boa parcela desse segmento.
Creches consultadas pela reportagem do JC nos Bairros afirmaram que não recebem nenhum tipo de doação. As coordenadoras dessas entidades explicam que os obstáculos são muito grandes e que falta boa vontade das empresas para atender os pedidos. “Eu até cheguei a fazer uma espécie de convênio com um sacolão da cidade. Mas parece que o dono estava dando esmolas para a genteâ€, reclama Adriana Matheus Guerreiro, assistente social da Creche Rainha da Paz, localizada na Vila Pacífico.
Ela conta que a ajuda que a entidade recebe é esporádica e que, geralmente, vem de pessoas da sociedade. “Tem um vizinho nosso, dono de uma chácara, que fornece de vez em quando umas frutas e legumes que não estão bons para a venda. A gente aproveita tudoâ€, salienta.
Tereza Araújo Vilani, coordenadora da Creche Doce Recanto, localizada no Núcleo Octávio Rasi, também enfrenta o mesmo dilema. Ela conta que, até pouco tempo atrás, recebia ajuda de um supermercado da cidade. “Quando iam limpar a banca de hortifrutis, eles nos ligavam para ir buscar os produtosâ€, explica.
De acordo com ela, a creche conseguia aproveitar de 50% a 60% do que recebia. “Eram coisas que ainda estavam em bom estado para consumoâ€, diz.
No entanto, há cerca de cinco meses o estabelecimento comercial foi vendido e a creche perdeu a colaboração. Ela diz que tentou conseguir doação com os permissionários da Central de Abastecimento S/A (Ceasa), mas as dificuldades foram tantas que acabou desistindo. “Eles me pediram um calhamaço de documentos para provar a idoneidade da creche. Eu levei, mas não tive uma resposta muito positivaâ€, destaca.
De acordo com ela, mesmo com a inscrição, a doação não estava confirmada. “Para receber algum alimento, tínhamos que pedir em cada boxe da central e era uma situação bem complicadaâ€, destaca.
Ela diz que nem sempre encontrava as pessoas disposta a doar e que ficava numa situação constrangedora. “Ficou um clima chato.â€
Bauru tem pronto um projeto denominado Programa de Reciclagem de Alimentos “Alimenta Bauruâ€, de autoria do empresário Domingos Malandrino. Atualmente, ele é diretor de Indústria e Serviço da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico. No entanto, o projeto é pouco atrelado à administração municipal. “A idéia é buscar a solução independentemente do Poder Público. O que eu quero é mobilizar a sociedade’, diz.
Depois da divulgação do projeto no JC nos Bairros da última semana (1 de dezembro), Malandrino conta que recebeu vários telefonemas de apoio e de pessoas interessadas em colaborar. “O projeto tem que sair do papel. Mas, para isso, as pessoas precisam se interessar e participar maisâ€, afirma.