Bairros

Detritos completam refeição diária

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Com uma renda semanal de cerca de R$ 15,00, o casal Aparecida Barsotti, 64 anos, e Sebastião Aparecido Alves, 33 anos, não consegue recursos suficientes para comprar nem mesmo a sua alimentação. Para sobreviver, eles retiram do lixo muitos alimentos que completam a refeição diária. “A gente dá graças a Deus quando encontra algo nos sacos de lixo”, destaca a mulher.

Aparecida e Sebastião são apenas um exemplo entre os milhares que existem em Bauru. De acordo com dados da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), 5,93% da população da cidade - 18.738 pessoas - vivem na indigência, ou seja, com uma renda familiar de até R$ 75,00.

Egli Muniz, diretora da Faculdade, não acredita que todo esse contingente se alimente de detritos encontrados no lixo. Mas, diz que uma boa parcela dessas pessoas recorre aos restos de comida para sobreviver. “Não tem como saber exatamente quantas famílias vivem abandonadas, sem nenhum apoio de entidades assistenciais ou órgãos públicos”, explica.

Ela acredita que o percentual de pessoas que retiram alimentos do lixo não é tão elevado, pois existem outras estratégias de sobrevivência. “Tem muita gente que participa de programas de entidades assistenciais, como o sopão ou doação de cesta básica”, diz.

Não existem números concretos sobre esses dados. No entanto, vale ressaltar que 25% da população do município vive com menos de US$ 2,00 por dia, (índice internacional para detectar a linha da pobreza). “Esse levantamento eu fiz em julho, quando a moeda americana valia R$ 3,00”, explica Egli.

O presidente da Associação dos Carroceiros da Zona Leste, Aparecido Quirino Claudio, salienta que no Núcleo Fortunato Rocha Lima a maioria dos moradores trabalha como catadores de papel. “Essas pessoas passam o dia mexendo no lixo para pegar material reciclável. Quando encontram comida, acabam levando para casa”, conta.

Sem comida

Aparecida e Sebastião não escondem essa realidade. Eles percorrem a cidade diariamente em busca de um meio de sobreviver. Reviram lixeiras atrás de jornal, papelão, plásticos e latas de alumínio, material que é vendido a um ferro-velho do bairro onde vivem. Ao abrir os sacos de lixo, muitas vezes se deparam com alimentos desperdiçados por outras pessoas. “Já encontrei até saco de feijão fechado. Não penso duas vezes, levo para casa”, conta Aparecida.

Ela não sabe contabilizar qual é a renda mensal da família, pois diz que não consegue juntar o dinheiro por 30 dias. “A gente recebe de acordo com o que traz no carrinho”, diz.

No entanto, dá para ter uma idéia de quanto vai parar no bolso do casal por semana. Basta verificar qual o valor que eles dispensam na compra do supermercado. “A gente gasta mais ou menos R$ 15,00 por semana no mercado. Com esse dinheiro, tem que comprar comida e algumas outras coisas, como papel higiênico e sabão para lavar roupa”, explica.

A sorte, segundo ela, é que não tem “criança pequena em casa”. Aparecida é casada pela segunda vez com Sebastião e não tem filhos com ele. “Meus filhos estão todos casados e cada um tem a sua vida independente da minha”, conta.

O marido dela ressalta que muitas vezes passa mais de 12 horas sem se alimentar. “Quando eu vou para o outro lado da cidade, não dá para vir em casa almoçar. Então, fico sem comer”, destaca.

Com vergonha e medo de pedir um prato de comida nas casas por onde passa, ele diz que chega a se sentir mal. “Tenho que sentar na calçada para não desmaiar”, salienta. Alves conta que as pessoas não gostam muito de dar comida. “Tem gente que ameaça chamar a polícia e eu tenho medo. Já pensou ir preso porque pedi um prato de comida?”, questiona.

Sem auxílio

A família de Claudete Sicilin Bernardes, 43 anos, e Gelson Bernardo dos Santos, 36 anos, também retira do lixo o alimento que coloca na mesa. Com a casa cheia - são 14 pessoas, sendo seis crianças, numa mesma residência, o casal não encontra muitas alternativas para garantir as refeições diárias.

Eles vivem como catadores de papel e separam, entre detritos orgânicos e recicláveis, algumas coisas que ainda servem para serem consumidas. “A gente sempre encontra muita fruta, verduras e legumes”, conta Claudete.

O marido dela destaca que eles sabem quando a comida não está boa para comer, pois ela tem um cheiro ruim. “Se a gente percebe que a comida está muito estragada, joga fora. Se der para aproveitar, lava, prepara e come”, explica.

Eles não sabem quanto recebem de remuneração por mês e dizem que todo o dinheiro que entra é destinado à compra de alimentos. Uma pequena parcela vai para o pagamento de taxas de água e energia elétrica.

Claudete e Gelson dizem que nunca receberam ajuda de nenhum órgão público ou entidades assistenciais. A mulher salienta que, certa vez, um candidato a cargo público prometeu doar uma cesta básica para a família. “Eu fui atrás várias vezes para receber e ele nunca me deu nada. Até fingia que não me conhecia. Estou esperando até hoje por essa comida”, reclama.

Ela diz que todas as pessoas da família se alimentam da comida encontrada no lixo e que ninguém nunca passou mal por causa disso. “Nem as crianças sentiram nada. Elas só ficam ruins quando estão de estômago vazio”, afirma.

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