Até mesmo para entidades sociais, que conseguem ter mais representatividade do que famílias sozinhas e isoladas, é difícil conseguir doações de alimentos para ajudar nas despesas. Creches ouvidas pelo JC nos Bairros ressaltam que já tentaram selar uma parcerias com empresas do ramo alimentício para garantir doações, mas as tentativas foram em vão.
De acordo com a assistente social da Creche Rainha da Paz, Adriana Matheus Guerreiro é “muito triste†ver tantos alimentos sendo desperdiçados enquanto as entidades têm muita dificuldade para se manter. “Muita coisa pode ser reaproveitada, basta que as pessoas tenham boa vontade para doarâ€, salienta.
Na creche onde trabalha, são atendidas 50 crianças de bairros como Parque Jaraguá, Fortunato Rocha Lima, Jardim da Grama e Vila Industrial. Provenientes de famílias carentes, elas dependem de uma boa alimentação na creche para o seu desenvolvimento. “Grande parte não tem condições de vida adequadas em termos de alimentaçãoâ€, diz Adriana.
Ela salienta que a creche não recebe subvenções para manter a sua despensa cheia. Os produtos são adquiridos através de recursos próprios ou de algumas doações esporádicas. “Tem um vizinho que é dono de uma chácara que nos ajuda com algumas frutas e legumesâ€, destaca.
Quando recebe algo, ele é aproveitado até a casca. “Nós fizemos um curso de reaproveitamento de alimentos e sabemos como tirar proveito de tudo o que ele ofereceâ€, salienta.
A melancia doada pelo vizinho não só foi servida in natura para as crianças, como virou uma sobremesa. “Nós usamos as cascas para fazer um doceâ€, explica Adriana.
Quanto às empresas do ramo alimentício, a assistente social conta que teve uma experiência ruim. “Eu ia buscar alguns alimentos em um sacolão, que nos dava o que não servia para a venda. Mas, o dono da empresa não doava de bom coraçãoâ€, destaca.
Ela conta que ele não a recebia bem e mostrava-se nervoso com a presença dela. “Parecia que eu estava pedindo esmola. Ele me tratava mal e fazia cara feia quando eu ia em busca dos alimentosâ€, diz.
De tanto se deparar com essa cena, a assistente social desistiu de ir buscar os produtos.
Constrangimento
O mesmo aconteceu com Tereza Araújo Vilani, coordenadora da Creche Doce Recanto, localizada no Núcleo Octávio Rasi. Ela diz que foi até a Central de Abastecimento S/A (Ceasa) para tentar conseguir doações para a entidade. Mas, acabou ficando constrangida. “Pediram para que eu levasse um calhamaço de documentos para atestar a idoneidade da creche. Mas nem assim resolveuâ€, diz.
De acordo com ela, ao invés de receber doações, ela tinha que percorrer os boxes da central pedindo sobras de alimentos. No começo, ela conseguia alguma coisa, mas depois a situação mudou. “As pessoas não queriam mais me atender, falavam que já tinham doado para outra instituição e que não tinha nada para me dar. Isso criava um clima péssimoâ€, destaca.
Durante um tempo, Tereza conseguiu doações de um supermercado da cidade. “Quando os funcionários iam limpar a bancada de frutas e verduras, eles nos telefonavam para que buscássemos os alimentosâ€, conta.
No entanto, a empresa foi vendida para outro grupo, há cinco meses, e a parceria com a creche acabou.
Como recebe o básico do setor de merendas da prefeitura, como arroz e feijão, a creche utiliza o pouco da verba que recebe para completar a alimentação das 58 crianças que atende. “Eu gasto cerca de R$ 35,00 por semana no supermercado para comprar frutas, verduras e legumesâ€, explica Tereza.
Ela diz que recentemente recebeu uma doação de um colaborador, que levou algumas caixas de vagem e tomate. “Foi de grande importância para nós essa ajuda, mas não sabemos se ela virá com freqüênciaâ€, enfatiza.
Vanda Assunção Pereira de Mendonça, coordenadora da Creche Berçário “São Joséâ€, também atesta que não recebe nenhum tipo de doação de supermercados ou empresas do setor de alimentação. “Nem quando peço, eu consigo alguma coisaâ€, salienta.
Ela diz que conta com a ajuda de vários segmentos da sociedade, que contribuem com alimentos para ajudar as 85 crianças atendidas pela entidade.
Para as representantes da creche, falta um pouco mais de espírito solidário e iniciativa para que as pessoas se mobilizem em torno da doação de alimentos. “Com tanta comida sobrando por aí, era preciso haver um programa que encaminhasse esse montante para quem realmente precisaâ€, diz Adriana Matheus Guerreiro.