Uma lente zoom da marca Cannon que teria sido adquirida pela Câmara Municipal em dezembro do ano passado, ao custo de R$ 2.280,00, apareceu misteriosamente na manhã de ontem no depósito de impressos do Poder Legislativo.
O equipamento - específico para máquina de leitura de microfilmagem - fazia parte da lista de materiais comprados pela Casa que não estavam sendo localizados nos setores nos quais deveriam constar como patrimônio incorporado.
A lente foi achada por volta das 8h30 pelas servidoras Maria Cleusa Maciel Rodrigues e Lenir Correa. Elas foram até o depósito de impressos para arquivar um calhamaço de documentos.
Já no interior do depósito - cujo acesso é feito pela cozinha -, Cleusa e Lenir se depararam com uma pequena caixa lacrada, acomodada em uma das prateleiras que abriga formulários e documentos arquivados.
Ao abrirem a caixa, elas foram surpreendidas com a lente zoom no seu interior. A Polícia Civil - que já instaurou inquérito para apurar as denúncias de irregularidades no Legislativo - foi chamada para registrar a situação.
A delegada-assistente da Seccional de Bauru, Cláudia Garmes Armani - presidente do inquérito policial -, compareceu à Câmara com a Polícia Técnica. Ela apreendeu o equipamento, que agora será remetido ao Instituto de Criminalística (IC) para análise. No decorrer desta semana, Cláudia vai tomar os depoimentos de Cleusa e Lenir.
Chaves
Segundo Cleusa, além dela e de Lenir, somente o chefe da Zeladoria da Câmara, Bibiano Camargo Neto, tem as chaves da porta do depósito. Na tarde da última sexta-feira, elas estiveram no local pela última vez antes do início do final de semana.
As servidoras garantem que naquele dia a caixa com a lente zoom não estava no depósito. A embalagem que abrigava o equipamento traz o emblema de uma empresa de rebites - Rebitop - estabelecida em Mauá (SP). Aparentemente, ela não tem relação com o comércio de lentes.
Embora tenha número de série e inscrições que levam a crer se tratar de uma lente importada, modelo zoom, o equipamento, por enquanto, não apresentou visível a sua marca. O que teria sido adquirido pela Câmara é da Cannon.
No depoimento que prestou à Comissão Especial de Inquérito (CEI) das compras, a chefe do setor de microfilmagem do Poder Legislativo, Margarida Dota, afirmou que nunca pediu a aquisição da lente zoom. Ela também garantiu que o equipamento que teria sido comprado não foi incorporado ao patrimônio do setor.
A empresa VF Informática, sediada em Lençóis Paulista, foi a responsável pelo fornecimento da lente zoom Cannon. Ela funciona no mesmo local no qual está instalada a Delta Informática, que vendeu à Câmara o software de atualização Autocad, cujo paradeiro é desconhecido no Legislativo.
2º mistério
Esta é a segunda vez que equipamentos e materiais que teriam sido adquiridos pela Câmara aparecem de maneira misteriosa. No último dia 29, o chefe da Zeladoria, Bibiano Camargo Neto, encontrou um envelope no balcão da entrada principal do Legislativo.
Dentro dele, foram encontrados os CDs dos softwares Corel Draw e Acrobat com um bilhete. Os programas teriam sido comprados pela Câmara, através da empresa VF Informática, em outubro do ano passado ao custo de R$ 1.809,00.
No mesmo dia, logo após achar o envelope, o zelador também localizou três cartuchos de tonner para máquina de microfilmagem. De janeiro de 2001 até março deste ano, o Legislativo teria comprado 13 cartuchos do material.
Destes, somente três foram utilizados e o restante estava desaparecido. Segundo cálculos dos membros da CEI das compras, a quantidade de cartuchos daria para suprir por 13 anos a demanda de serviço do setor.
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'Desvio de foco'
Para o presidente da Comissão Especial de Inquérito (CEI) das compras, vereador Luiz Carlos Valle (PSB), o aparecimento da lente zoom está vinculado a interesses que visam a desviar o foco da atenção das investigações que estão sendo feitas.
“Alguém está tentando desmoralizar e desviar o foco da atenção das apurações da CEIâ€, afirma. Ele garante que o rumo das investigações não será alterado por conta do aparecimento do equipamento. “Para mim, isso não muda nadaâ€, reforça.
Assim que foi informado do ocorrido, o presidente da Câmara Municipal, vereador Walter Costa (PPS), determinou à diretora administrativa da Casa, Vera Regina Agnelli, que iniciasse um procedimento de busca em todas as salas e gabinetes do prédio.
Segundo ele, a determinação tem por objetivo encontrar materiais ou equipamentos adquiridos pelo Poder Legislativo que ainda estão desaparecidos. Nos gabinetes dos parlamentares, a busca só ocorreu mediante autorização de seus ocupantes.
O vereador José Carlos Batata (PT) mostrou-se inconformado com o fato de somente três servidores terem a chave do depósito da Câmara e mesmo assim alguém ter conseguido acessar o local para deixar a caixa com a lente.
“Vou pedir para trocar o segredo da fechadura do meu gabinete. Quero que essa chave seja exclusiva e que ninguém mais tenha cópiaâ€, disse. O petista explica que tomou essa decisão porque há uma chave geral na Casa que abre todas as salas e gabinetes do prédio.