Impossibilitadas de pagar mão-de-obra para executar reformas em casa e cansadas de depender da boa vontade masculina, sete mulheres freqüentaram o curso de assentador de alvenaria promovido pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon) em parceria com o Senai, encerrado hoje. Elas representaram 40% dos alunos que cumpriram as 35 horas de aulas nas dependências do Projeto Girassol, no Núcleo Fortunato Rocha Lima.
Algumas delas esperam aproveitar a experiência para conseguir espaço no mercado de trabalho desempenhando o ofício de pedreiro. É o caso, por exemplo, da cozinheira Regina da Silva, que está há um ano desempregada.
“Através do que aprendi aqui, vou fazer mais um quarto na minha casa. Eu já tinha uma noção de construção pois colaborei no mutirão. Este trabalho é gostoso e tenho interesse em prestar serviços terceirizados, embora tenha consciência das dificuldades que vou enfrentar. As pessoas acham que é trabalho para homem porque é pesadoâ€, ressalta.
Para Lucimar Caetano Rios, pior do que assentar tijolos é carregar panelas em marmitaria. â€œÉ mais cansativo. Espero que com esse curso eu possa me livrar da dependência masculina para fazer pequenas reformas em casaâ€, conta.
Já uma outra participante, Eugênia Pereira Queiroz, considera o trabalho árduo, porém necessário. Na opinião dela, devido aos custos é impossível contratar mão-de-obra para fazer pequenos reparos domésticos.
“Meu marido não gostou muito quando falei que faria as aulas porque não achou adequadas para mulheres, mas acabou aceitando. Pretendo ajudar meu pai e meu irmão que são pedreirosâ€, informa Cristina Correia.
Apoio masculino
A empolgação feminina foi compartilhada com a masculina durante as duas semanas de curso. Anderson Henrique Gomes Inácio, que freqüentou as aulas para ter uma profissão, acha interessante a participação das mulheres nos canteiros de obra.
“Elas estão entrando no mercado em várias áreas, na construção civil não seria diferente. Porém, acho o ofício pesado para as mulheres, que nem agüentam com um saco de cimentoâ€, cutuca.
“Trabalho há sete anos na área e nunca tive colegas do sexo feminino, porém acho que existe espaço para trabalhadoras com força de vontadeâ€, comenta Luiz Carlos Fagundes. Já Ricardo Nunes ficou surpreso com a quantidade de colegas e ressaltou o capricho delas.
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Capricho
As mulheres são caprichosas e disciplinam os canteiros de obra. Essa é a opinião do engenheiro e instrutor autônomo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Carlos Alberto Neme Daré.
De acordo com ele, que ministrou as aulas do curso de assentador de alvenaria, o esmero das mulheres é uma tendência de mercado. “Esse tipo de conduta está sendo cobrada pelos clientes. Por isso mesmo, temos de acabar com o paradigma de que construção civil é lugar para homemâ€, destaca.
Mesmo assim, ele acha que os funcionários deste segmento devem ser preparados para aceitar a presença feminina.
Daré ministrou aulas práticas e teóricas, que incluíram temas como relacionamento humano. Ele ainda abordou questões como segurança de trabalho, higiene, sistema de unidades e medidas, além de cálculos de áreas e volumes.
“Todas as nossas instruções respeitam a Norma Brasileira Regulamentadora (NBR) e a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABTN)â€, informa.
O curso é uma iniciativa da Regional Centro-Oeste do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon), que enxerga neste tipo de iniciativa uma saída para a prosperidade do País.
“Só através da educação o Brasil vai progredir. Nós temos uma responsabilidade social e dentro do possível desenvolvemos atividades desta naturezaâ€, conclui o diretor da Regional Centro-Oeste, Ralph Ribeiro Júnior.