A lenda de Narciso permite deduzir que a vaidade acompanha o ser humano há centenas - senão milhares - de anos. Beleza é fundamental, mesmo para aqueles que dizem o contrário. No fundo, todas as pessoas querem ver uma bela imagem diante do espelho e fazem o que estiver ao alcance delas para atingir este objetivo.
Com o desenvolvimento da medicina, fica cada vez mais fácil recuperar uma aparência jovem e corrigir defeitos anatômicos. Neste sentido, a cirurgia plástica tem sido um dos principais aliados da humanidade.
Há alguns dias, porém, um médico causou alvoroço em todo o mundo anunciando que em seis meses já seria possível realizar um transplante facial completo. A idéia dele é realizar um procedimento cirúrgico extremamente complexo em que uma pessoa viva recebe o rosto inteiro de outro indivíduo morto.
A novidade, que parece saída dos filmes de ficção, pegou médicos e pacientes de surpresa. O defensor do transplante de rosto diz que o procedimento pode ser a única alternativa de tratamento para pessoas com deformidades faciais severas, como aqueles que sofreram queimaduras extensas, acidentes violentos ou mutilações resultantes de doenças como o câncer e a hanseníase.
Como o próprio médico adiantou, o anúncio da cirurgia causou uma grande polêmica junto à comunidade médica. Profissionais de todo o mundo apressaram-se em dizer que a medicina ainda está longe de conseguir este resultado. A maioria dos especialistas afirma que seria preciso remover estruturas muito complexas, como pele, músculos, cartilagens, nervos, veias e artérias.
Cada uma destas partes precisaria ser religada ao corpo do paciente com microcirurgias. O procedimento demoraria pelo menos dez horas e com um risco altíssimo de rejeição, mesmo com as mais modernas drogas imunossupressoras existentes hoje.
O JC Saúde ouviu alguns cirurgiões-plásticos para descobrir até onde vai o poder transformador dos procedimentos estéticos. Eles são unânimes em dizer que existem inúmeras técnicas aplicáveis atualmente com excelentes resultados. Porém, o ser humano não é Deus e não tem o poder de trocar identidade.
Se por um lado alguns defendem que a medicina está tecnicamente preparada para realizar transplantes de tamanha complexidade, por outro, há uma comunidade profissional inteira discutindo as questões éticas e morais que estariam envolvidas neste processo.
Para a maioria dos profissionais, a cirurgia plástica deve limitar-se a melhorar a aparência do ser humano, sem a pretensão de torná-lo outra pessoa.