Saúde

Transplante de rosto gera polêmica

Sabrina Magalhães com Agência Estado
| Tempo de leitura: 5 min

O médico Peter Butler, do Hospital Royal Free, de Londres, deixou a comunidade médica em polvorosa há duas semanas, quando anunciou que a medicina tem total conhecimento técnico para realizar transplantes de rosto. De lá para cá, profissionais de todo o mundo entraram na discussão. A maioria contesta a afirmação de Butler e garante que tudo não passou de alarme falso.

A hipótese de que um ser humano poderia receber o rosto de outra pessoa durante uma cirurgia plástica é explorada há anos pela ficção científica. No filme “A Outra Face” (1997), o transplante facial é usado para infiltrar um policial entre os bandidos e impedir a explosão de uma bomba.

No filme, o bandido (Nicholas Cage) é gravemente ferido numa caçada policial e é dado como morto. No entanto, o serviço secreto o mantém vivo porque tem planos para ele. Em sigilo, um médico é convidado a participar do plano e as autoridades propõem a um policial (John Travolta) que assuma o lugar do criminoso.

Cage faz o papel de líder numa gangue. O irmão dele montou um dispositivo que está escondido em algum lugar da cidade e tem data certa para explodir. De posse do corpo semimorto do bandido, o serviço secreto quer transplantar o rosto de Cage em Travolta para que o policial vá para a prisão onde está o criador da bomba e descubra onde o dispositivo está escondido.

Na ficção, porém, o bandido desperta de seu coma, captura o médico e o obriga a colocar nele o rosto de Travolta. Então, invertem-se os papéis. Todos que sabiam da troca são mortos e o policial passa a enfrentar inúmeros obstáculos para provar sua verdadeira identidade, sair da prisão e desativar a bomba.

“Gostaria muito que isso já fosse possível, mas o transplante facial ainda deve demorar muito para acontecer. Houve precipitação no anúncio”, lamentou Carlos Fontana, especialista em cirurgia plástica do Hospital Albert Einstein em entrevista à Agência Estado.

Rolf Gemperli, professor de cirurgia plástica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que tal operação envolve o transplante da pele, da gordura subcutânea, dos músculos, das cartilagens, das veias e até dos nervos da face do doador. “Hoje, não é possível sequer transplantar uma orelha. A chance de rejeição é enorme”, afirma.

Contra essa rejeição, o paciente seria obrigado a receber imunossupressores pelo resto da vida. Butler defende que é graças aos avanços da microcirurgia e de novas drogas contra a rejeição que o transplante teria sucesso. Gemperli contesta, lembrando que o uso destas drogas acabaria com o sistema imunológico do paciente. “Ele ficaria suscetível a uma infinidade de infecções e doenças”, completa.

De acordo com pesquisadores, mesmo as experiências feitas com cobaias animais são desanimadoras neste sentido. O médico José Antônio Veloso Bastos, do Hospital dos Defeitos da Face, conta que macacos submetidos a transplantes tiveram que ser sacrificados.

“A grosso modo, quanto mais externo é o órgão transplantado, maior a probabilidade de rejeição”, explica. “No caso da pele, um órgão de proteção, o mais externo do corpo, a situação é a mais grave. Apenas gêmeos idênticos não teriam problemas”, acrescenta.

Na previsão dos especialistas brasileiros, as pessoas com o rosto desfigurado ainda precisarão esperar pelo menos dez anos (e não seis meses, como previu Butler) para corrigir suas feições numa mesa cirúrgica.

Ética

Para a maioria dos médicos, não bastará anular os empecilhos técnicos para a realização do transplante de rosto. Antes de mais dada, será preciso discutir os entraves éticos da nova cirurgia.

O próprio Butler afirmou isso à revista “New Scientist”, quando anunciou que o procedimento já era possível. Segundo ele, o debate ético e moral “obviamente” teria que preceder a realização do primeiro transplante. “A questão não é mais se podemos fazer isso, mas se devemos fazê-lo”, comentou Butler à revista. “Afinal, trata-se da expressão e, conseqüentemente, da emoção das pessoas”, comentou.

Marco Segre, professor do Departamento de Medicina Legal e Ética Médica da Faculdade de Medicina da USP, diz não vislumbrar, “em princípio”, problemas éticos no desenvolvimento da futura operação. “Se a cirurgia estética não é proibida...”, pondera.

No entanto, ele coloca a questão jurídica em discussão. “Não se pode mudar a identidade à revelia da lei. (A técnica) poderá servir, literalmente, de máscara para os criminosos. É preciso existir um controle sobre isso”, observa. O enredo do filme “A outra face” representa bem este risco.

Outro obstáculo que a cirurgia de Butler poderá enfrentar é encontrar doadores. “Se hoje é difícil convencer a família do morto a doar um enxerto de pele das costas ou da coxa, imagine se alguém doaria o rosto todo”, desafia Fontana.

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Objetivo é restauração facial

Quando o médico Peter Butler anunciou que a medicina já domina conhecimento técnico suficiente para realizar o transplante facial completo, durante reunião da Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos, ele defendeu a cirurgia como alternativa de tratamento para restaurar o rosto de pessoas mutiladas por doenças ou acidentes.

Segundo ele, o transplante de rosto consistiria num procedimento microcirúrgico por meio do qual se poderia transferir pele, músculos, ossos, nariz, lábios, orelhas, sobrancelhas e até vasos sangüíneos de doadores mortos para pessoas desfiguradas. Butler defende a técnica como a única forma de tratar estes pacientes.

Ele afirma que a perda do tecido facial é um problema devastador. Atualmente, a pele de outras partes do corpo até podem ser transplantadas, mas não podem ser movimentadas. O resultado faz parecer que a pessoa usa uma máscara.

Quanto à possibilidade de assumir o lugar de outra pessoa, o cirurgião garante que o receptor jamais ficaria com a aparência igual à do doador.

De acordo com o especialista em reconstrução facial da Universidade de Sheffield, Martin Evison, a musculatura do rosto é moldada pela forma do crânio que a sustenta. Ou seja, no transplante, os músculos da face teriam que ser reesculpidos, o que garante que o rosto recebido jamais pareceria o mesmo que o original.

“A idéia de retirar o rosto de uma pessoa morta e colocá-lo em outra parece ter saído diretamente da ficção científica”, admitiu Butler em artigo publicado pela revista “The Lancet” (julho/2002). “Mas se o transplante de rosto se mostrar única maneira efetiva de tratar pessoas seriamente desfiguradas, os médicos terão obrigação de usar a técnica cirúrgica”, defendeu.

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