Polícia

Mulher se vale de ser 'menos suspeita'

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Tidas como sexo frágil, as mulheres se valem de ser “menos suspeitas” de traficar drogas, especialmente aquelas que têm filhos pequenos. De acordo com o titular da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), José Henrique Gomes dos Santos, até pouco tempo atrás elas não eram o foco da polícia. “Ninguém suspeitava das mulheres.”

Para a polícia, o tráfico de drogas era um crime que somente os homens praticavam porque requer coragem de enfrentar o risco. Mas como em todos os setores, as mulheres conquistaram espaços e, no tráfico, isso não foi diferente, embora a maioria negue que estava comercializando drogas.

Sem saída

Condenada a três anos e 50 dias por tráfico de crack, a jovem Elizabete Cristina da Silva, 24 anos de idade, está muito arrependida de ter se envolvido com o comércio e uso de drogas. O arrependimento foi tanto que ela, no julgamento, teria pedido para ficar presa. “Eu não tenho parentes. Quero me livrar do vício. Se eu sair daqui, o pessoal não vai me deixar em paz.”

Segundo informações dos funcionários da cadeia de Cabrália Paulista, Elizabete teria conversado com as testemunhas na sala de espera para que elas não aliviassem a situação. “Eu estava na vida errada. Estou tendo a chance de melhorar. Minha mãe morreu quando eu tinha 11 anos.”

Ela confessa que teve um filho, hoje com sete meses. “Ele foi para a Sociedade Beneficente Cristã. Eu o vi somente uma vez.”

A jovem mãe diz que está disposta a mudar de vida. “Estou sem crack há nove meses. Parei de roubar e estou vivendo. Acho que posso ficar sem a droga. No começo foi difícil, mas estou superando.”

“Sou viciada”

Prostituta de profissão, Angela Aparecida Martins, 41 anos, confessa que foi surpreendida com sete pedras de crack em Jaú. “Já tinha fumado quatro. Eu era prostituta, fazia programas amorosos e fumava crack para agüentar a noite toda.”

Longe dos filhos, que não consegue ver há três meses, ela se revolta quando pensa que poderia estar sob tratamento. “Eu já fui doméstica de carteira assinada. Fico revoltada porque fui presa como traficante, mas as pedras eram para uso próprio. Eu poderia ter me livrado da prisão se tivesse entregado o traficante, mas ele não me procurou. Eu é que fui à procura dele e não acho correto entregá-lo.”

“Precisava de dinheiro”

Regiane Crisley Lourenço de Moura, 25 anos, é casada com um preso da Penitenciária II de Bauru. Ele está condenado a dez anos de prisão por homicídio. “Tenho cinco filhos e não tinha dinheiro para sustentá-los. Meu pai me ajudava, mas não dava.”

Para sobreviver, Regiane conta que passou a acolher as mulheres dos presos em sua casa. “Eu dava pensão para elas, no dia de visita. Uma delas deixou uma caixinha com maconha em cima do meu guarda-roupa. Na terça-feira seguinte, a polícia bateu em casa e encontrou. Acho que uma delas quis me prejudicar.”

O resultado da prisão foi péssimo, na opinião dela. “Não tive lucro algum e fui presa por tráfico. Meus filhos estão com a família. Meu ex-marido está pedindo a guarda do meu filho de nove anos e acho que ele vai ganhar, porque estou presa.”

Revista pessoal

A jovem Natália Resende Marques, 20 anos, foi presa por tráfico em Pirajuí. “Eu estava com dificuldades financeiras. Meu marido está preso por tráfico. Emprestei 50 gramas de maconha e enfiei na vagina. Na revista pessoal, fui pega.”

Ela lamenta que o filho esteja em São Paulo, com a mãe. “Fui condenada a três anos e seis meses. Meu filho está sem leite e sem fraldas. Não tenho como ajudar minha mãe. Isso é péssimo.”

Marilene Maria de Oliveira, 26 anos, foi presa em abril deste ano na rua Ezequiel Ramos (em Bauru). “Meu marido está preso por tráfico, mas eu não sou traficante, sou usuária.”

Ela alega que no dia em que foi presa não estava com droga. “Os policiais estavam bravos porque nunca conseguiam me pegar com droga. Resolveram me prender mesmo assim. Fiz exame toxicológico. Provei que sou viciada, mas mesmo assim, o juiz me condenou.”

Ela acha que deveria ter sido condenada a uma pena alternativa. “Se ele me condenasse a varrer rua, eu iria. Quero ficar perto dos meus filhos”, diz.

“Era do meu sobrinho”

Maria Lúcia Ferreira Andrade, 40 anos, conta seu drama dizendo que estava no trabalho quando um sobrinho colocou a maconha em uma gaveta. “Eu cheguei do serviço e a polícia estava lá.”

A patroa dela tentou ajudá-la. “Estou aguardando julgamento. Espero ser absolvida.”

“Foi vingança”

Márcia Regina Pereira, 29 anos, é reincidente. Foi presa e cumpriu pena da primeira vez, por tráfico. Saiu da cadeia e teve a infelicidade de ser surpreendida com 66 papelotes de cocaína. “Eu saí da cadeia com a prisão condicional. Estava levando a vida numa boa. Estava divorciada.”

Com três meses de liberdade, ela decidiu mudar de casa. “Em Lençóis Paulista, onde eu morava, o povo sabia que tinha sido presa, minha mãe sofria muito. Resolvi mudar.”

No dia da mudança, ela foi surpreendida pela polícia. “Dentro da cômoda tinham 66 papelotes de cocaína. Eu estava saindo com um moço, e a ex-namorada dele tinha ido em casa. Foi ela que colocou a droga e avisou a polícia.”

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