Há não muito tempo atrás, numa grande fazenda no centro-oeste paulista, vivia uma comunidade de camponeses formada por animais, aves e réptil. Dentro dessa comunidade havia um grupo que a representava. Eram vinte e um os responsáveis pela elaboração das leis que norteavam os destinos e o bem-estar de todos. Dentre o grupo era escolhido um chefe que iria “chefiar†por dois anos os trabalhos da equipe em prol da comunidade. A fazenda era fértil e possuía um enorme milharal, onde a comunidade pegava no pesado; antes do sol raiar o galo cantava e lá ia o burro cabisbaixo, calo nas costas, em direção ao trabalho; no caminho encontrava o jacaré que se arrastava para mais um dia de labuta. E assim, quando o sol nascia todos os camponeses já estavam na plantação. As horas eram cansativas e estressantes, mas a alegria em ver tão viçoso aquele milharal superava qualquer desgaste. Enquanto isso, o grupo de representantes se preparava para a escolha do seu novo chefe. O grupo vivia num paraíso, não havia crise (econômica, é claro), pois bastava apertar a tartaruga que gerenciava a fazenda, e lá vinha tonelada de milho para a manutenção do grupo. A pobre tartaruga, embora independente, harmonicamente fazia o repasse em dia, pois sabia, no menor atraso já era possível ouvir o chocalhar da cascavel e o uivar do lobo. O grupo reunido começou a analisar os candidatos a chefe, logo se levantou o cachorro: - Uau! Sou um cão de guarda, guardarei com muito zelo e eficiência todo esse milharal que é nossa riqueza e prometo transparência e respeito para com a comunidade e no final os milhos que sobrarem devolverei à tartaruga, não haverá desperdício. Num canto da sala, próximo à janela, o bode observava aquelas espigas de milho reluzentes como ouro, seu olho brilhou, sua pulsação aumentou, sua coordenação motora desandou e num salto gritou: - Beeeee! pum, pum; eu serei o chefe! Faremos uma grande festa, viagens, diárias, carruagem top-line com porta automática e desembaçador de lona traseira, enfim, com todos os opcionais e o que é mais importante, tudo, tudo sem controle; faremos muitas extras de dez segundos, o grupo ganhará muitos milhos e... Arrrr! Interveio a atenta águia: - Extras não dá, estamos no limite. E o bode: - Beeeee!... pum, pum; ôôô diacho! Não dá agora, brevemente todos seremos beneficiados. Assim, sob o olhar atônito de poucos, pouquíssimos, virou chefe o bode. Não demorou muito para começar a farra, o barulho foi tanto que chamou a atenção da comunidade, que rapidamente reprovou toda aquela gastança, que só ocorreu, graças aos amigos do bode. E assim, a comunidade tomou consciência e, dois anos depois, fizeram uma limpeza e viveram felizes para sempre. (Elias Brandão - RG: 526.516)
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