Concordem ou discordem os analistas, a verdade é que a nossa velha migração rural caminha ininterruptamente, denotando que não se cansa de forma nenhuma... Testemunha-se isso observando de perto as estações ferroviárias, rodoviárias e dos chamados metrôs, localizadas nos principais centros demográficos do País, em cujas amplas esplanadas se notam, a qualquer hora do dia ou da noite, grupos de imigrantes de várias espécies, sacolas nas mãos calejadas, malas nos ombros cansados e crianças nos braços maltrapilhos, movimentando-se de lá para cá, ensaiando tomar rumos diversos, como os das periferias distantes. Paradoxalmente, enquanto as populações urbanas estão dando saltos monumentais, estimadas agora em 82 por cento do total nacional, as rurais vão declinando proporcionalmente, diminuindo a olhos vistos... Mas, o problema não constitui segredo para a opinião pública, tendo-se em vista que no Brasil as migrações rurícolas sempre existiram, provavelmente desde a descoberta do fabuloso torrão. No começo, por ligação a ciclos eonômicos, como os do ouro, do café, da borracha, da cana de açúcar, da soja e, ultimamente, fruto da expulsão do homem do campo por muitos motivos, inclusive as violentas secas nordestinas, as quais forçam os chefes de famílias e os jovens a fecharem as portas de suas palhoças e enveredar caminhos à fora à busca de outras condições de subsistência, associadas, fundamentalmente, a algum emprego urbano, ainda que com salário nem sempre compatível com as suas premências. Estima-se que, neste início de milênio, ainda que esperançoso, cerca de 50 milhões de pessoas vivam distantes, bem longe, de seus locais de origem. E quantos conseguem todo êxito, quer dizer, logram concretizar lá longe um pouco dos sonhos seus e de suas famílias? Uma grande interrogação, pois, segundo os estudiosos, o problema não se soluciona apenas agasalhando-se as contínuas correntes migratórias em empregos e moradias e, sim, primando-se por fazer desaparecerem os fatores que expulsam da roça o homem que quer trabalhar, entre os quais a falta de uma reforma agrária tão objetiva quanto possa, para que se realizem a paz e a justiça que não se podem negar a seres humanos, não somente aqueles que vivem na luminosidade da energia elétrica, cada vez mais onerosa, mas também os que passam suas noites na meia-luz de velas e candeeiros. É impossível fazer-se uma reforma agrária consentânea? Não nos parece! É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)
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