No momento em que estamos escrevendo, já são conhecidos alguns nomes de componentes do 1.º escalão do governo Lula, prestes a iniciar-se. E não há como negar a surpresa que alguns deles causaram à opinião pública e a alguns setores da mídia e do ambiente político-partidário. Não faltam, inclusive, comentários que têm pretensões a julgamentos prévios acerca do desempenho de um governo que nem sequer se iniciou.
De nossa parte, o que parece fora de dúvida é a inspiração nitidamente pragmática das escolhas até aqui feitas, algumas das quais levando em conta, e em muita conta, a situação de ridícula dependência do capital externo em que nos colocou o desgoverno cessante, de desempenho claramente marcado pela defesa intransigente dos interesses daquele capital e do formidável poder, inclusive militar que, em certos casos e quando se torna necessário, ele pode usar ao arrepio das mais comezinhas normas do Direito Internacional e, até, dos mais fundamentais direitos humanos dos quais, entretanto, os seus defensores despudoradamente se proclamam paladinos. E foi a defesa intransigente, pelo governo cessante, daquele capital e daquele poder, que fez com que o titular do referido governo fosse tão festejado no Exterior, e tão repudiado pela nossa gente que maciçamente votou pela derrota do seu candidato o qual, aliás, durante a campanha, muito fez para tentar desvincular-se da pecha de continuísta que, afinal, acabou por derrotá-lo.
Ainda agora, noticia a imprensa que o diligente advogado dos interesses não brasileiros foi convidado para exercer as funções de “personal advisor†do sr. Koffi Annan, o dócil secretário-geral da ONU.
Ora, um assessor ou conselheiro pessoal deve apresentar pelo menos duas credenciais insubstituíveis: a da competência funcional e a de gozar da confiança absoluta de quem o convida para assessorá-lo ou aconselhá-lo. Não parece justo ao leitor perguntar-se de onde vem, pelo menos a 2.ª credencial?
Certamente não vem ela da fonte do repúdio maciço do povo brasileiro que, neste momento, cheio de esperança, aguarda o desempenho do governo prestes a empossar-se.
De nossa parte, diríamos que, se fôssemos o poder de que o sr. Bush é também apenas marionete, estaríamos preocupados pois, segundo pensamos, o governante a empossar-se não fará nada que, daqui a quatro anos, o credencie a ser mimado pelos que se locupletam com a nossa miséria e a nossa condenação ao atraso. E queremos deixar claro para o leitor, que temos uma visão da natureza real do formidável poder que oprime o mundo a qual nos faz, certa ou erradamente supor que ele está agora por detrás da globalização, exatamente como ontem financiou e esteve atrás de uma outra forma de internacionalismo - o internacionalismo marxista - cujo hino, o leitor bem sabe, chama-se Internacional. O que houve, portanto, foi uma mudança de estratégia daquele poder; não de política, que continuou a ser a de domínio mundial e de superação das soberanias nacionais. Em Lula, entretanto, parece-nos identificar um sentimento de brasilidade que haverá, querendo Deus, permitir-lhe realizar um governo mais à feição do nosso povo e dos nossos interesses.
Daí, pensamos, justificar-se a esperança de um futuro mais digno e mais justo. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC. www.jorgeboaventura.jor.br - e-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)