Bairros

Terra com chumbo lota 213 caminhões

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Já foram retirados 213 caminhões de terra de ruas e quintais e do interior de casas da região do Jardim Tangarás para reduzir a concentração de chumbo. Todo o material está sendo depositado no barracão do Setor Metalúrgico da Ajax, localizado às margens da rodovia Bauru/Marília e ao lado do Tangarás.

Maria Helena Abreu, diretora do Departamento de Saúde Coletiva, órgão da Secretaria Municipal de Saúde, diz que o trabalho de descontaminação feito pela Ajax, seguirá por pelo menos mais um mês. “Já terminamos de raspar as ruas do Tangarás e do Parque Bauru, num total de 80. Mas ainda faltam cerca de 30% dos quintais para serem raspados e 40% das casas para serem aspiradas”, conta.

O barracão da Ajax está com dois terços de sua capacidade lotados de terra contaminada, de acordo com Maria Helena. “A terra está sendo depositada em um barracão coberto, será analisada para se conhecer o índice de chumbo e só depois a empresa dará a destinação apropriada”, explica.

O setor metalúrgico da Ajax está interditado pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) desde fevereiro, por irregularidades na área ambiental. Até agora, a empresa não protocolou projeto no sentido de sanar os problemas e retomar as atividades, segundo Rogério Chini, diretor da agência ambiental de Bauru.

Maria Helena ressalta que paralelamente às ações de descontaminação as crianças da região do Tangarás continuam sendo submetidas a exames de sangue para acompanhar a concentração de chumbo no organismo.

Jaíra Kirchner, diretora do Departamento de Unidades Ambulatoriais da Secretaria Municipal de Saúde, conta que a concentração de chumbo no sangue das crianças tem caído com o passar do tempo. “Das 33 crianças que anteriormente estavam com mais de 25 microgramas do metal por decilitro de sangue, agora são 12 e destas 12, só três precisam de tratamento medicamentoso”, diz.

A Secretaria de Saúde, segundo ela, está agendando a internação das três crianças para receber os medicamentos que ajudarão na redução da taxa de chumbo. “A quelação dura 19 dias e é preciso a internação por causa dos efeitos colaterais”, frisa.

Outras quatro crianças já passaram por tratamento semelhante, de acordo com Jaíra. “Todas elas estão sendo submetidas a exames de sangue periódicos e a avaliações neurológicas e psicológicas. Por enquanto, não observamos nenhuma alteração causada pelo chumbo”, tranqüiliza.

Os órgãos de saúde contabilizaram 301 crianças da região do Tangarás com mais de 10 microgramas de chumbo por decilitro de sangue e todas estão sendo acompanhadas. Para Jaíra, a tendência é acentuar a queda da taxa do metal no organismo porque a fábrica está com as atividades suspensas e a terra que estaria contaminada está sendo removida.

Mas Jaíra ressalta que as crianças terão que ser acompanhadas por um período de cerca de dez anos. “Só através de uma avaliação longa é possível verificar se, além de alteração neurológica, o chumbo interferiu ou não no desenvolvimento da criança. Vamos verificar a estatura, o desenvolvimento intelectual”, conta.

Para comparar os resultados, no próximo ano a Secretaria Municipal de Saúde vai fazer exames também em um grupo de crianças de outro bairro, da mesma faixa etária e condições sócio-econômicas semelhantes. “Vamos iniciar os testes em um grupo de controle”, afirma Jaíra.

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Urbanização

A Associação de Moradores do Jardim Tangarás não está contente com as ações de descontaminação que estão sendo realizadas no bairro. José Aparecido Missão, diretor de comunicação da entidade, afirma que a reivindicação dos moradores é que seja feita a urbanização do bairro, não apenas a retirada da terra das ruas e dos quintais.

“Só essa raspagem de terra não adianta nada porque tem calçada e outros lugares contaminados. Nós pedimos, e não fomos atendidos, para que junto com a raspagem das ruas já fosse feito o meio-fio. Assim cada dono de imóvel já poderia fazer a calçada e a rua ficaria pronta para receber o asfalto”, afirma Missão.

Ele conta que a associação tem, inclusive, um projeto que prevê o plantio de árvores na frente de cada uma das casas. “Tem uma espécie de árvore que ajuda a reduzir o chumbo da terra. Se fosse feito o meio-fio e demarcada a calçada, seria plantada uma árvore na frente de cada casa, como prevê a nova lei municipal”, conclui.

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