Auto Mercado

Muito além da graxa

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Há profissões em que o tempo e as mudanças tecnológicas são implacáveis com os que dependem delas para garantir o sustento da família. As constantes mudanças nas relações e no mercado de trabalho exigem, tanto dos que já se encontram quanto para os que sonham ingressar nele, atualização constante. A ponto de quem não se preocupar com isso praticamente excluir suas chances - e a sobrevivência - na carreira escolhida.

Entretanto, se há uma receita inqüestionável para o sucesso profissional esta obrigatoriamente tem como principal ingrediente o prazer. Com os mecânicos, cujo dia nacional foi comemorado ontem, não é diferente. Sejam eles iniciantes ou experientes na área, o amor pela atividade é sentimento comum e responsável por alimentar desde projetos ambiciosos de vida a suspiros de saudade.

O jovem bauruense Carlos Fernandes Vera Neto, 16, é um dos que sonham alto. Tanto que, logo aos 14 anos, decidiu entrar no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) para aprender mecânica. Desde então, já domina conceitos de suspensão, carga e partida, metrologia, transmissão, freios, ignição, alimentação, arrefecimento, motor e injeção eletrônica.

Com isso, seu maior desejo é trabalhar em uma montadora ou transformar-se em um professor do órgão onde estuda. Tudo para poder acompanhar sempre de perto a evolução tecnológica do setor, um dos fatores que o levaram a enveredar pela profissão. “O objetivo é nunca parar de se atualizar. Afinal, ver os consertos passarem da graxa para os computadores e aparelhos modernos foi inspiração natural para mim.”

O gosto dos brasileiros pelos automóveis, considerados uma verdadeira paixão nacional, também ajudou Carlos a se decidir pela mecânica. “Há um interesse muito alto pelos carros em nosso País e, por isso, é um mercado promissor”, considera o adolescente.

Já quando o assunto são os profissionais da “antiga”, como os que atuaram nas décadas de 20 a 80, Carlos demonstra muito respeito. “Eles foram os precursores da evolução tecnológica alcançada hoje na indústria automobilística. Por isso, temos muito o que aprender também com eles, pois reparar carros mais antigos não deixa de ser um mercado nobre”, ressalta ele.

Mecânico por acaso

Experiência é o que não falta para o ex-mecânico bauruense Irineu de Lima Guedes, que dedicou cerca de 50 anos dos seus atuais 72 à atividade. Mas apesar de considerar ter nascido para a profissão, seu início nela foi obra do mais puro acaso.

Tudo começou no final da década de 40, quando ele ainda trabalhava em uma tecelagem em Piratininga. Depois de trabalhar por anos no setor de fiação, foi transferido por ordem do patrão à área de manutenção das máquinas da empresa. “Ele falou que eu levava jeito para mecânico, pois dizia que eu era curioso. Comecei como ajudante de um contramestre e logo já debulhava os equipamentos”, lembra Irineu.

E como o destino parecia querer empurrá-lo à carreira que abraçaria mais tarde, o prédio onde funcionava a tecelagem pegou fogo. Assim, Irineu decidiu abandonar os tecidos e ficar em casa até que arrumasse outra ocupação, o que não demorou.

Após 15 dias de “descanso” forçado e aconselhado por um amigo, Irineu resolve pedir emprego em uma concessionária da Ford. No outro dia já estava trabalhando no local na área de serviços gerais, consertando câmbios e suspensões. E, depois de três anos, foi transferido para o setor especializado em motores.

Não demorou e Irineu, no início da década de 70, abriu sua oficina, existente até hoje em Bauru e administrada pelos sócios Márcio e Fernando, este um de seus três filhos. “Considerava-a como minha filha caçula e me apeguei tanto a ela que enquanto houvesse serviço, não saía de lá. Tinha dia que as 24 horas eram pouco para mim”, relembra ele.

Mas Irineu não parou por aí. Depois de atuar por 12 anos na Ford, aceitou o convite de um amigo para trabalhar na manutenção da frota da unidade bauruense da Secretaria da Fazenda, onde permaneceu por mais 23 anos.

Entretanto, o ex-mecânico revela um detalhe inusitado e incrível de sua longa história na profissão: detesta dirigir. “Nunca gostei e só guiava por obrigação profissional, pois todos os reparos que fazia tinha de testá-los rodando”, destaca ele.

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“Hoje é moleza!”

Do alto de seu cinqüetenário na profissão, Irineu relembra das dificuldades enfrentadas ao longo de sua carreira. A falta de ferramentas adequadas para os consertos é uma delas. “Antigamente tínhamos até que fabricá-las para poder reparar um carro. Tudo era complicado, pois não possuíamos nem macaco hidráulico”, recorda ele.

As estradas de terra da época também eram o terror dos mecânicos. “Se o veículo encalhasse em uma delas, a primeira atitude que tomávamos era verificar se os sitiantes das redondezas tinham bois para puxá-lo. Isso porque não havia movimento nelas”, conta Irineu.

Por isso, ele considera que, atualmente, é “moleza” ser mecânico. “Hoje há ferramentas de todos os tipos e indústrias específicas para fabricá-las. Além disso, uma infinidade de aparelhos já diz o que está errado nos automóveis. No meu tempo, tínhamos apenas os olhos, o ouvido, as mãos e o cérebro para regular um motor”, compara Irineu.

Apesar das agruras da atividade, a aposentadoria, segundo o ex-mecânico, foi o momento mais difícil de sua vida. “Tive de arranjar outra ocupação para não ficar parado em casa, pois já não estava aguentando mais”, confessa o bauruense.

E é justamente tal paixão que o leva a aconselhar os futuros pretendentes. “Para ser um bom mecânico, o mais importante é gostar do que faz. Tudo que se faz com amor e prazer nos dá a paciência necessária para solucionar os problemas naturais da profissão”, conclui Irineu.

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“Pensei que era o fim”

“Quando os carros entraram na era da injeção eletrônica, pensei que ia ter de parar. Mas percebi que, com as mudanças tecnológicas, era necessário atualizar-me para poder continuar na profissão.”

A afirmação é do mecânico bauruense Antônio Moura Xavier, de 62 anos, 40 deles dedicados à atividade. Para ele, que já passou boa parte de sua vida consertando Fordinhos da década de 20 e 30, a evolução da indústria automobilística é boa e veio para ficar. “Melhorou muito, pois além de trabalharmos mais limpos, há vários aparelhos que facilitam a execução e o diagnóstico dos reparos”, considera Xavier.

Ele ressalta que, atualmente, o ideal para um bom mecânico é conciliar a prática já adquirida com novos princípios teóricos. “Muitos dizem valer mais a prática do que a gramática. Para mim as duas devem caminhar juntas, pois mais do que saber consertar carros, é preciso entender os conceitos mecânicos por trás deles”, afirma.

Por isso, hoje Xavier encara com naturalidade efetuar consertos em veículos modernos e lembra com saudade da época em que começou na profissão. “Meu sonho era saber como funcionava a máquina em que eu trabalhava, pois também era caminhoneiro. Queria tanto que até simulava problemas para poder corrigi-los”, conta ele.

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