Era um dia como hoje, antevéspera de Natal. Quem não é comerciante, a esta altura já relaxou no serviço e os problemas ficaram para o ano que vem. “O povo exulta de alegriaâ€, dizem os cronistas menores embora jamais tenha visto alguém exultar de tristeza. Os bares ficam cheios, colegas de escritório se confraternizam. Outros buscam arrefecer o calor que nesta época do ano é “senegalescoâ€, na expressão dos locutores esportivos de antigamente.
Numa época em que um sorvete custava muito menos do que hoje, um menino lá com seus 10 anos entrou na lanchonete e sentou na primeira mesa que viu vagar. Camisa vermelha era coisa avançada naquele tempo. A garçonete colocou um copo d’água na frente dele, como a advertir: ou gasta ou rapa daqui.
– Quanto custa um sundae? - perguntou o garoto.
– Cinqüenta centavos - respondeu a garçonete.
O menino puxou as moedas do bolso e passou a contá-las.
– Bem, quanto custa o sorvete simples? - ele perguntou.
A essa altura mais pessoas estavam esperando por uma mesa e a garçonete, perdendo a paciência:
– Trinta e cinco centavos - respondeu de maneira brusca.
O menino, outra vez, confere o valor das moedas.
– Eu vou querer, então, o sorvete simples de chocolate.
A garçonete trouxe a taça com duas bolas de sorvete, sem cobertura e os outros complementos que fazem o luxo do sundae. Aproveitou a viagem para trazer também a conta que deixou sobre a mesa.
O menino acabou o sorvete, bebeu a água, pagou a conta no caixa e saiu. Quando a garçonete voltou para limpar a mesa percebeu que ao lado do pires havia 15 centavos em moedas. Seus olhos marejaram. O menino da camisa vermelha não pediu o sundae porque ele queria que sobrasse a gorjeta da garçonete.
Sempre tive a impressão de que aquele menino de camisa vermelha era Papai Noel disfarçado de criança, louco por uma pausa refrescante depois de encher o saco. Deve ter saído de casa sem o cartão de crédito. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)