O gesto já virou tradição. Todos os anos, personagens anônimos se transformam em heróis e fazem a alegria dos moradores dos bairros mais carentes da cidade. São cidadãos que se vestem de Papai Noel e distribuem milhares de brinquedos para as crianças nos locais onde a população luta diariamente para sobreviver.
“Eu não consigo deixar de fazer essa campanha de Natal, pois as pessoas já acostumaram com issoâ€, diz o aposentado Natal Segantin, que há nove anos visita vários pontos da cidade distribuindo brinquedos.
Ele consegue as doações junto a diversas famílias de Bauru, que se solidarizam e o procuram para colaborar. “Geralmente, quem ajuda são pessoas que não têm muitas condições financeiras. É difícil conseguir doação com os empresáriosâ€, destaca.
Há dois anos, Segantin tentou suspender a campanha. No entanto, a força do seu gesto já está tão marcada junto à comunidade que ele acabou tendo que voltar atrás na sua decisão. “Eu resolvi parar porque a minha nora faleceu e a família estava bastante abalada com essa perdaâ€, justifica.
Como as doações continuaram aparecendo, ele não teve como deixar de sair às ruas para distribuir os brinquedos. Mesmo sem condições emocionais, realizou a campanha em 2000 e no ano passado.
Todo mês de dezembro, como faz há sete anos, a funcionária pública estadual Pierangela Filizzola se dedica a uma causa nobre: sai em busca de arrecadações para levar ao Parque Jaraguá e fazer a alegria das crianças. Ela faz questão de se vestir a caráter e organizar a festa na casa de uma moradora do bairro. â€œÉ muito emocionante ver todos aqueles olhinhos brilhando na expectativa de ganhar o presenteâ€, diz.
No começo, ela conseguia cerca de 500 peças para a campanha. Atualmente, já passa de 2 mil. “As pessoas vão se acostumando com a gente e se prontificam em nos mandar o brinquedoâ€, explica.
Sem destino
Depois de criar dez filhos enfrentando muita dificuldade financeira, Maria Madalena Braz de Oliveira, a Madalena Branca, resolveu virar a “Mamãe Noel†de milhares de crianças moradoras do bairro Ferradura Mirim e vizinhança.
Desde 1995, ela organiza uma caravana natalina no bairro, levando presentes e muito carinho para os moradores do local. “Eu fiz uma promessa: pedi a Deus que me ajudasse a criar bem os meus filhos. Se conseguisse isso, iria ajudar as outras pessoasâ€, salienta.
Sem fantasia e sem destino certo para entregar as doações, o funcionário público Jorge Munhoz realiza, há 11 anos, o sonho de muitos pequenos que vivem em condições precárias na cidade.
Ele consegue os presentes junto à comunidade e, no dia 24 de dezembro, véspera de Natal, coloca tudo no carro e sai pelas ruas de Bauru entregando os pacotes para quem encontra na rua. “Eu observo as crianças e vejo quais são aquelas que realmente não têm acesso a nada. É para ela que entrego os presentesâ€, diz.
Munhoz conta que prefere seguir esse esquema por ter certa dificuldade para se locomover. “Eu ando de muletas e a indumentária iria atrapalhar bastante. O importante é entregar o brinquedoâ€, frisa.
Geralmente, ele arrecada cerca de 800 brinquedos nessa época do ano. Embora não tenha um local certo para fazer a distribuição, Munhoz salienta que muitas crianças ficam ansiosas esperando a sua passagem pelo bairro. “Como faço isso há 11 anos, muita gente já se acostumou comigo e não vê a hora de ganhar o presente.â€
A região do Núcleo Fortunato Rocha Lima costuma ser a mais visitada pelo “Papai Noel†anônimo, mas ele pode mudar de direção se perceber que há locais com uma demanda maior de carentes.
A professora da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Giselli Tamarozzi Lima, explica que esse tipo de trabalho realizado por voluntários é tão importante para quem recebe como para quem realiza. “Quem organiza também está recebendo um presente, pois a resposta da solidariedade é tão forte que completa o coração da pessoa que se propõe a doarâ€, salienta.