Saúde

Preço alto é o principal obstáculo

Por Sabrina Magalhães | Com Herton Escobar
| Tempo de leitura: 4 min

Para que os alimentos orgânicos consigam um espaço melhor no mercado, é preciso vencer vários obstáculos. O maior deles, é a diferença de preços. A maioria dos orgânicos custa entre 10% e 200% a mais que os alimentos convencionais, especialmente nos supermercados.

Na produção orgânica, todo o processo precisa ser feito em equilíbrio com a natureza, de modo a preservar a saúde do homem e do meio ambiente. Na agricultura, é proibido o uso de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos. Na pecuária, é vetada a aplicação de hormônios e os animais não podem ficar confinados. Ambas a situações expõem o alimento a riscos maiores, como o ataque de pragas e doenças nas lavouras, morte dos animais por acidentes ou contaminações, entre outros.

A alternativa orgânica aos agrotóxicos são os bioinseticidas - compostos à base de toxinas naturais extraídas de bactérias - e outros defensivos “caseiros”, como o extrato de pimenta e alho com álcool, que dá um aroma todo peculiar às fazendas.

Outra prática comum é o chamado controle biológico, com uso de inimigos naturais das pragas, como joaninhas e vespas. O adubo básico é o bokashi, um fermentado com vários tipos de farelos naturais.

Além disso, sem adubos químicos e hormônios, a produção é mais lenta, o tempo para abate de animais e para a colheita é bem maior que o dos produtos convencionais. Sem contar que os vegetais orgânicos são colhidos apenas na época de safra e, por isso, não estão disponíveis durante todos os meses do ano.

Outro fator que encarece os orgânicos é a falta de tecnologia e capacitação. â€œÉ um sistema muito mais difícil de produzir. Cada propriedade é um universo único. Não existe regra”, explica a pesquisadora Maria Fernanda Fonseca, da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro). Quase toda a tecnologia aplicada na produção orgânica é adaptada da convencional e nem sempre eficiente.

O fato de serem produtos mais caros, porém, é uma questão que vai além do preço na etiqueta. Abrange, segundo os defensores da ideologia orgânica, uma série de custos da agricultura convencional que não são contabilizados no caixa, mas são cobrados da sociedade de uma maneira ou de outra.

Contaminação ambiental e alimentar, perda de produtividade do solo, desperdício de água, assoreamento de rios, perda da biodiversidade, desigualdade social, fuga do homem do campo são problemas que o modelo orgânico promete evitar por alguns reais a mais do consumidor.

Social

O produtor orgânico também cumpre uma série de obrigações sociais e legais. Não pode usar mão-de-obra infantil e todos os trabalhadores devem ser registrados. A legislação ambiental precisa ser cumprida rigorosamente, com a preservação do solo e da água até o reflorestamento de partes da propriedade, se necessário.

Tudo é fiscalizado regularmente pelas certificadoras, que cobram de R$ 500 a R$ 5 mil por ano pelo uso de seus selos, dependendo do tamanho e valor da produção.

Além disso, de acordo com o engenheiro-agrônomo do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Moacir Darolt, 90% da produção orgânica são provenientes de pequenas e médias propriedades familiares. Ou seja, quem compra orgânicos está ajudando pequenos agricultores.

Além disso, é uma forma indireta de impedir que os pequenos produtores continuem usando agrotóxicos de maneira precária, sem máscaras, luvas ou qualquer outro tipo de proteção.

Na opinião do engenheiro agrônomo Luiz Geraldo de Carvalho Santos, ex-produtor e especialista em produção orgânica, o maior desafio para o setor é educar o consumidor sobre os benefícios desses alimentos. “As pessoas dizem que não podem pagar por um alface orgânico, mas enchem o carrinho de refrigerantes. Que economia é essa?”, questiona.

“Todo mundo diz que os orgânicos são apenas para as classes A e B. Eu digo que é balela. Quem gasta mais dinheiro com remédio, o pobre ou o rico?”, indaga Hélio da Silva, gerente de negócios da Native - empresa brasileira que domina mais de 40% do mercado mundial de açúcar orgânico. “Lá fora, alimentação é segurança. No Brasil, é preço”, completa.

Em palestra realizada em junho deste ano durante uma feira de produtos alimentícios, o vice-presidente do Instituto Biodinâmico (IBD), Alexandre Harkaly, informou que uma pesquisa realizada na Alemanha concluiu que quem ingere orgânicos acaba por gastar menos com médicos, o que, de uma forma, compensa os custos mais elevados dos produtos.

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