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Filme de ficção


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Heráclito de Éfeso ficou famoso no século V antes de Cristo justamente por dizer coisas descontínuas e deliberadamente obscuras. Talvez por isso suas máximas sirvam em qualquer situação. Quando ele disse: “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, foi um Zeus nos acuda. Os sábios gregos do outro lado do Mar Jônico ficaram maravilhados. Heráclito acreditava numa ordem eterna racional por trás de todas as mudanças do mudo. Quando alguém for banhar-se uma segunda vez no rio, muita água terá passado, seixos rolaram e o homem deverá ter perdido em alguns segundos pelo menos 400 mil células substituídas por outras tantas. Marx entrou na discussão 2.342 anos depois para dizer que Heráclito não negava a possibilidade de se entrar duas vezes no mesmo rio. A frase pretende dizer que se o rio não mudasse, não seria um rio. Se os seres humanos não passassem por todos os estágios da vida, desde o nascimento até a velhice, seriam outra coisa e não seres humanos. Então, temos que nos preocupar é com as pessoas. Se estas não tiverem uma vida digna jamais vão ter outra. Marx, evidentemente, não acreditava na reencarnação.

Se acreditarmos, como Heráclito, numa ordem eterna racional por trás de todas as mudanças do mundo podemos concluir que o ano 2003 não será nem melhor e nem pior que o antecedente e o conseqüente. Será o ano 2003 com a pluralidade das coisas e a tensão entre os opostos que dão ao mundo unidade. Bons e maus fazem parte da espécie humana. Um arco existe porque a corda e a madeira são puxadas em direções opostas. “Que seria de Cristo se não fosse Judas?” - perguntava a negrinha que queria ver Deus, de Bernard Shaw. E descendo ao deserto da província: Que seria do Toninho Garmes e do Clemente se não fora Walter/Nilson Costa?

Heráclito pode ser explicado e até compreendido. Neste ponto vou ler desde o início para verificar se entendo o que eu mesmo escrevi. Impossível é entender como uma Lei chamada “de Responsabilidade Fiscal”, feita para impedir a gastança desenfreada do dinheiro público pode obrigar o presidente da Câmara de Vereadores de uma cidade chamada Bauru a gastar ainda mais para justificar o que já gastou a mais. Para remediar terá que gastar mais para demitir 42 assessores que serão readmitidos no segundo dia útil do ano por um novo presidente. Que lei é essa que determina sob pena de severa punição o prefeito de uma cidade falida a pagar com prioridade milhões de reais ao empreiteiro poderoso, pela obra insana de um viaduto que vai do nada a lugar nenhum?

Dizia Montesquieu que as leis têm “espírito”, isto é, vale pelas intenções dos legisladores. “Nada pode contrariar à sua alma” porque ela vale mais do que qualquer interpretação de ordem semântica, ideológica ou positivista. Montesquieu influenciou as Constituições de todos os países civilizados com o seu livro “Do espírito das leis”. Aqui, não vale nada. Melhor assistir o “Fale com ela”, do Pedro Almodóvar , nem que seja só para ouvir Elis Regina cantando “O grande amor” de Tom e Vinicius. Se você não entender por quê a toureira Lydia que entrou em coma depois de chifrada pelo miúra de repente volta à cena para ouvir Caetano Veloso cantar “Cucurucucu Paloma”, preste atenção na letra em espanhol: a canção conta a história de uma moça morta antes de cristalizar o seu amor e que lamenta a sua desdita através do canto triste de uma pomba. Os arrulhos são mais que um gemido que faz até o céu estremecer. Dá para entender. Foi bom ir ao cinema de verdade. Esse filme bauruense de ficção já assisti. O mocinho morre no fim. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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