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Hosmany: recado a Lula e Alckmin

Por Fernanda Miranda | Tribuna Impressa
| Tempo de leitura: 7 min

Araraquara - Condenado a mais de 30 anos de prisão por seqüestro, homicídio e roubo, o cirurgião-plástico Hosmany Ramos descobriu na penitenciária o dom para a literatura. Nestes anos, desde a prisão em 1982, já são doze livros. O mais recente, “Seqüestro Sangrento”, foi apresentado recentemente para a imprensa paulista em entrevista “ora coletiva, ora exclusiva”, seguindo a tradição de falar apenas uma vez por ano com a mídia.

Antes de começarem as perguntas, Hosmany Ramos - sentado de frente para o altar da capela da Penitenciária de Araraquara - pediu para mostrar as dedicatórias que fez em dois exemplares do livro recém-lançado. Ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, uma mensagem de “fé e coragem para construir o futuro” e ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (“a pessoa que paga a comida que eu como”) a admiração pela “mão firme que conduz São Paulo e amanhã, quem sabe, poderá conduzir o Brasil” e a parabenização pela implosão da Casa de Detenção.

Hosmany afirma que o livro anterior, “Pavilhão 9” lançado em 1995, foi o responsável pela detonação da Casa de Detenção. “Antes da publicação, ninguém falava no assunto, mas na ocasião do lançamento, eu disse que a história do Brasil tinha três grandes massacres – Canudos, a saga de Lampião e o Carandiru, que estava esquecido, embora tivesse acontecido em São Paulo, debaixo das barbas de todo mundo. Isso foi o estopim para que levantassem o caso de novo”.

Na publicação, surge a dúvida: até que ponto os personagens do livro existiram e participaram de sua vida? Na apresentação da obra, o aviso: “Muitas das informações e situações narradas foram baseadas em pessoas que conheci e com quem convivi. Gente que, por alguma razão, se sente em perigo, vulnerável à Justiça, ou sub judice, não podendo, portanto, levantar poeira na imprensa”. Mas o que há no livro? Hosmany conta a história de políticos, empresários, assassinos que possuem ligações promíscuas de corrupção, chantagem e crimes.

Há personagens como Pedro Paulo Alarcão Jeremias, o PP, influente nos bastidores da política e que participou da campanha de um presidente fictício. Coincidência?

E outros como Albert Goldenberg, dono de uma construtora que consegue, por meio de licitações fraudulentas, contratos bilionários do governo federal. Para isso, mantém funcionários no Orçamento da União e paga aluguéis de mansões para políticos.

As vidas dos personagens se amarram na ambição desenfreada pelo dinheiro, luxúria, sexo e tudo que só muito dinheiro pode oferecer.

Hosmany diz ter duas pretensões com o livro: a primeira é acabar com a tortura no País e a segunda, provocar a criação de um ministério anticorrupção.

No lançamento do romance, na penitenciária de Araraquara, o autor disse que pretende pedir indulto de sua pena ao presidente eleito. Ele se compara ao escritor francês Jean Genet (1910-86) para pedir liberdade. “O presidente francês da década de 50, quando assumiu, deu o indulto a Jean Genet, que estava condenado à prisão perpétua. Aquilo possibilitou que ele fizesse a grande obra que deixou. Então, estou fazendo esse pedido.”

Leia a seguir, trechos da entrevista concedida pelo presidiário-escritor.

Imprensa – Além da literatura, o que mais as grades te trouxeram? Hosmany Ramos – A literatura é a minha profissão e a grade abriu o meu olho, me deu um olhar que pensa. Hoje eu penso.

Imprensa – A TV tem um poder de persuasão muito grande, principalmente por causa das imagens impactantes e fortes. O que o seu livro pode aprofundar e mostrar além do que a TV já mostrou sobre os assuntos que você aborda? Hosmany Ramos – Você tem que procurar fugir da influência da televisão. Ela tem que ser violenta, porque se não dá sono, isso já foi provado. Por outro lado, eu tenho que me distanciar da televisão para não ficar fazendo pastiche, copiando as rotinas da TV e isso não me interessa. Então, eu tenho que ficar criando uma literatura completamente original.

Imprensa – O que você pretende provocar nas pessoas com este último livro? Hosmany Ramos – Meu primeiro livro, como eu disse, detonou a detenção, foi o estopim para a explosão. Neste segundo livro, eu gostaria de chamar a atenção para a corrupção, o maior câncer que está consumindo o nosso País, e também para o lado da tortura que ainda existe no Brasil. se eu conseguir estes dois objetivos, eu tenho certeza que eu consegui construir alguma coisa.

Imprensa – Você acha que as temáticas dos seus livros foram pautadas principalmente pelo fato de você estar escrevendo dentro da prisão ou é possível fugir da tragédia, da morte, da corrupção estando aqui? Hosmany Ramos – No momento, eu prefiro dizer para você que a minha temática hoje é essa. Ela está dando certo, né? A violência é o ponto chave da preocupação na sociedade. Pode ser que amanhã, quando eu sair da prisão e estiver vivendo em outros ambientes, eu vá escrever um livro sobre amizade. O escritor americano Dashiell Hammet era considerado um escritor pauleira, escrevia coisas duras. No entanto, o conto mais bonito da vida dele é sobre a amizade dele por um outro fulano de tal.

Imprensa – A sua auto-biografia vai ser mais forte que o tiro de fuzil que você tomou na muralha? Hosmany Ramos – Sem dúvida, porque eu estou lá fora e não tenho com que me preocupar de, de repente, ser morto dentro da prisão...

Imprensa – Você tem medo de ser morto na prisão ou razões para isso? Hosmany Ramos – Não, não é medo. Acho que a gente vive ou a gente morre. Numa rebelião morre tanta gente, não é? O que eu tenho que fazer é não me preocupar. Quando você quer viver, você corre o risco de morrer e quando você quer morrer, talvez você não morra. Foi o que aconteceu comigo. Quando o cara me deu o tiro na perna e eu caí, eu queria morrer. A primeira coisa que eu fiz foi pegar a minha arma e dar um tiro na minha cara, mas a pistola não tinha mais bala.

Imprensa – Como é o seu processo de criação aqui dentro, quais as dificuldades que você encontra e quanto tempo você dedica a isso? Hosmany Ramos – Uma das grandes dificuldades para quem está preso é o fato de não ter muita pesquisa.

Como eu não tenho, faço linguagem retroativa, ou seja, aquilo que eu vi. Estou construindo a minha obra literária toda em cima do passado. Eu vivi muitos anos na alta sociedade. Aquelas imagens que eu tive, que não mudaram em nada. Eu tentei criar personagens em cima deste tipo de pessoa. Eu escrevo todos os dias, não tem sábado nem domingo. Eu tenho um problema de sono e acordo todo dia às três horas da manhã. A primeira coisa que eu faço é lavar o rosto, acender a luzinha, e começo a escrever. Quando eu escuto o barulho do latão na galeria trazendo o café da manhã, eu já estou com alguma coisa pronta.

Imprensa – E o Hosmany que ficou famoso, está onde? Está sendo transformado por esta sua habilidade em lidar com a situação? Hosmany Ramos – Eu diria que é uma pergunta que eu não posso responder em uma única frase. No 12o dia da sequestrada do meu livro, ela está analisando a fama. Ela chega à conclusão de que muitas vezes Deus dá a fama para alguém para acabar com a pessoa, dá dinheiro não para ser rico. Como você tem dinheiro, você vai ter uma grande família, um padrão elevado, e desperta o olho do seqüestrador porque você está ostentando. Isso num País de pobres e desdentados, é como dar um tapa na cara. A fama é um determinado tipo de castigo para determinado tipo de pessoa.

Imprensa – E para você, é ? Hosmany Ramos – Já foi, hoje eu diria que eu não corro atrás da fama porque ela acontece naturalmente, de uma maneira quase que inexplicável. Eu não fui escrever livro para correr atrás da fama. Eu escrevi um livro, ganhei um prêmio, mas o livro ficou jogado durante dez anos, até que ser descoberto pelos franceses. Eu não corri atrás da fama. É a mesma coisa com o Lula, um torneiro mecânico que chegou à Presidência da República. Determinadas pessoas têm uma tragetória, são predestinadas.

Imprensa – E o próximo livro? Hosmany Ramos – Eu estou escrevendo já “Gravata Colombiana”, que já tem umas 170 páginas. Estou vivendo aqui dentro com dois colombianos, o pai de um deles trabalhou com Pablo Escobar. E converso com eles para saber sobre as Farcs, sobre todo estes movimentos colombianos. E estou tentando escrever um romance sobre isso. É um trabalho de, no mínimo, dois anos. Quando você escreve, escreve umas mil páginas, depois vai tirando, o que eu chamo de lipoaspiração.

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