Os EUA argumentam que um ataque militar contra o Iraque se justifica porque o regime de Saddam Hussein ajudou, e inclusive abrigou, a rede radical islâmica Al-Qaeda, e porque existe um risco claro e presente de que Bagdá ataque Israel, ou outros países, com armas de destruição em massa. Mas não conseguiu convencer nem a opinião pública mundial nem as Nações Unidas e o Conselho de Segurança, com exceção da Inglaterra. Por essa razão é legítimo perguntar se a concentração de forças ao redor do Iraque e os planos de uma mudança de regime sob uma ocupação norte-americana têm outros motivos.
A Arábia Saudita, até agora aliada-chave dos EUA no Golfo, parece cada vez mais indigna de confiança, já que procediam desse país 15 dos 19 suspeitos de terem participado dos atentados do 11 de setembro. Também acredita-se que o dinheiro saudita seja uma fonte de recursos para a rede radical islâmica Al-Qaeda, com a qual esse país árabe compartilha o wahabismo como ideologia. Portanto, o futuro Iraque poderia converter-se em um substituto político e militar da Arábia Saudita na região. Isso também daria aos EUA acesso ao petróleo iraquiano, em substituição ao petróleo saudita, ou agregado a este, e liberaria Israel da suposta ameaça iraquiana.
Com o fim de obter apoio para um ataque militar, os Estados Unidos prometeram aos demais países com direito a veto no Conselho de Segurança da ONU (França, Rússia e China, além da Inglaterra) acesso ao petróleo iraquiano. Porém, uma guerra contra o Iraque poderia ter conseqüências desastrosas para a região. A Guerra do Golfo (1991) causou cerca de 300 mil baixas iraquianas e dificilmente uma nova conflagração cause menos dor a um povo já bastante sofrido.
Existem alternativas à guerra! À equipe de inspetores da ONU poderia ser facultado encontrar e eliminar qualquer arma iraquiana de destruição em massa e controlar as instalações onde seja possível produzi-las. Naturalmente, isso dá lugar à pergunta por que não poderiam ser realizadas inspeções semelhantes em outros países da região. Entre 1994 e 2001, 54 nações negociaram um tratado para verificar a proibição internacional de armas biológicas aprovada em 1972, e alcançaram um acordo unânime, com exceção do governo de George W. Bush. Os Estados Unidos poderiam ter uma posição muito mais forte para exigir inspeções em outros países se assinasse o documento. A ONU teve êxito em suas gestões para acabar com as guerras no Camboja, na Namíbia, no Timor Leste e em outras partes, facilitando e supervisionando eleições livres.
Somente o povo iraquiano tem o direito de mudar seu regime, e deve ter reconhecido o direito de fazê-lo, se assim desejar. Entretanto, é embaraçoso para Washington exigir eleições supervisionadas, já que a corte suprema norte-americana suspendeu a recontagem da questionada eleição no Estado da Flórida, nas eleições presidenciais de 2000.
Para resolver os conflitos, o Conselho da Segurança da ONU deveria designar uma comissão de sábios, por exemplo, integrada pelos prêmios Nobel da Paz Jimmy Carter, Mikhail Gorbachov e Nelson Mandela, para analisarem as metas das partes, tentando alcançar os objetivos legítimos de todos eles. Quanto mais partes se envolverem nas negociações e quanto mais assuntos estiveram sobre a mesa, mais probabilidades haverão de serem encontradas soluções reciprocamente satisfatórias para os conflitos porque cada parte pode conseguir algo que quer em troca de concessões que considere menos importantes. (Os autores Johan Galtung é professor universitário e diretor da Transcend, uma organização para a promoção da paz e do desenvolvimento. Dietrich Fischer é professor na Pace University e co-diretor da Transcend)