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Reflexões na hora amarga


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Como se já não bastassem as complicações e os dramas de um mundo pontilhado de guerras, de ameaças de guerras, de injustiças brutais e flagrantes, de nova e surpreendente forma de conflito representada pelo terrorismo organizado e capaz de ações em grande escala, agora mesmo em que estamos iniciando estas nossas “Reflexões”, acabamos de ouvir pelo rádio que teria nascido o primeiro bebê humano do sexo feminino, se não nos enganamos, fato ocorrido na Flórida, EUA.

A ser verdadeira a notícia, o que, de imediato, pode inferir-se é que o fato de tão extrema gravidade e imprevisíveis consequências, teria sido levado a cabo antes de que se processassem adequadamente as discussões em torno da bioética, apenas iniciadas em torno do assunto.

Tal atitude é conseguente à desvinculação, cada vez mais notória e mais evidente, da nossa civilização, dos alicerces culturais de que preveio. Tal desvinculação, no plano político, como que oficializou-se a partir do artigo 6º da “Declaração Universal dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos”, promulgada pela Assembléia Nacional francesa, em 1791. A esse artigo e à sua dramática importância, temos nos referido, por mais de uma vez, em “Reflexões” anteriores. Não custa, porém, relembrar aos nossos leitores o porque da importância que atribuímos ao referido artigo 6º. É que nele ficou estabelecido que “A lei é a expressão da vontade geral, manifestada diretamente, ou por intermédio de representantes; e que ninguém seria obrigado a fazer, ou a deixar de fazer alguma coisa, a não ser em virtude de lei.

O que, à primeira vista, parece tão justo e adequado, na verdade desvinculou o comportamento humano de quaisquer compromissos com os fundamentos culturais da nossa civilização, factual e indiscutivelmente representados pela hipótese de um Deus criador e de uma Sua lei, desprezando-se o Direito Natural para adotar-se, com exclusividade, o Direito Positivo, constituído pelas leis elaboradas segundo a vontade de maiorias eventuais e volúveis, notoriamente manipuláveis e manipuladas pelos que detenham os meios de influenciar as emoções das massas e, em consequência, a formação das maiorias a que nos referimos há pouco. E essa mentalidade passou a ser dominante na democracia liberal, que, por isso mesmo, o grande papa Leão XIII, em sua encíclica “Libertas”, afirmou expressar, no plano filosófico, uma posição de naturalismo agnóstico. Por isso, a civilização ocidental, de bases judaico-cristãs, laicizou-se totalmente, e oferece-nos hoje o espetáculo terrivelmente preocupante que o mais distraído dos seres humanos começa a como que sentir. Estamos, de fato, supomos, em uma encruzilhada da História de gravidade sem precedentes e convém que paremos para refletir e, se ainda houve tempo, para tentar evitar as catástrofes que se aproximam, cada vez mais palpáveis e mais ameaçadoras.

Antes de terminar essas “Reflexões”, queremos deixar claro que, no que tange à clonagem agora noticiada, o que parece indiscutível é que a iniciativa não foi, como devia, precedida da discussão bioética indispensável. Afinal, o que dizem as tão desprezadas Escrituras, é que “Tudo é permitido, mas nem tudo convém”. Não parece ao prezado leitor que o tema merece, de fato, ser refletido? (Jorge Boaventura)

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