Mais um ciclo virtual se encerra. O calendário talha na mente das pessoas aquilo que na prática não existe: a interrupção do tempo entre ano velho e ano novo. Há uma exceção à essa pretensa regra de indivisibilidade, qual seja, a morte, já que com ela é possível tornar real a ação do tempo entre o que existiu e o que deixou de existir. Enfim, “o tempo, esse Ministro da Morteâ€, como expressou Machado de Assis, opera sobre tudo o que manifesta vida.
O paradoxo se instala na medida em que o tempo é vida e é morte ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista de cada pessoa. Para mim, é vida, sem discordar de Machado de Assis, mas por uma questão de opção de vida, pois sou um otimista. Para quem sofre de câncer provavelmente o tempo lhe sobejará como resquício de vida, óbvio que gozado de forma pessimista ou otimista. Isto quer dizer que mesmo num aparente estágio final de vida, é possível dobrar os sinos por dias melhores.
E é exatamente neste ponto que relaciono vida, morte, ano novo e câncer com a cambaleante situação do Legislativo Bauruense. A corrupção é um câncer. As denúncias que dali têm emergido nada mais são do que o pus de um tumor maligno, vicejado de um câncer que tem assolado grande parte dos políticos brasileiros. Os gabinetes estão repletos da besta doença, que insiste em tripudiar sobre a miséria, a fome e a desesperança dos cidadãos.
É lamentável que o Poder que deveria exatamente fiscalizar se veja em frangalhos, impotente para cumprir seu mister. Não se cura a doença da corrupção num piscar de olhos, tanto que tratamos o Executivo num passado recente, mas ela atacou o Legislativo. É preciso agir. É imperativo declarar guerra aos corruptos. Há que se extirpá-los do Poder, sob pena de declarar a morte desta pífia democracia em que vivemos, de cuja timidez tem-se aproveitado os mazelentos da política, normalmente impostados na arrogância e no modo fascista de conduzir a coisa pública.
Não basta a eliminação de tão somente algumas pequenas células cancerígenas, mas a desinfecção tem que ser total, de cabo a rabo, tanto daquele que se locupletou quanto daquele que o permitiu, seja por negligência ou por desprezível omissão. Aproveitemos, pois, o ensejo virtual do início de um novo ciclo para declarar a morte: morte à corrupção; morte às idiotas ameaças de morte; morte ao medo; morte à miséria e morte ao umbigo próprio.
Proclamemos a vida, a solidariedade, a justiça social e a igualdade. Que o tempo que é dado a cada um no próximo ano seja bem aproveitado e o suficiente para lutar pela prosperidade de todos. Haja tempo e coragem para lutar por uma vida melhor, aí incluindo a batalha para defenestrar do poder todos aqueles que solapam o bolso do contribuinte e a saúde de nossas instituições. (O autor, Sandro Luiz Fernandes, é advogado trabalhista, coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB - Bauru)