Oito anos atrás, a lua-de-mel do presidente Fernando Henrique Cardoso com o poder foi abruptamente encerrada dias depois de sua posse pelo colapso da economia mexicana. A quebra do México, que o então diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Michel Camdessus, chamou de “a primeira crise financeira do século 21â€, mostrou os limites da política da moeda valorizada que ancorava o real. O “efeito tequila†foi rapidamente contido por uma intervenção de socorro coordenada pelos Estados Unidos.
Passariam mais de três anos e duas novas crises financeiras internacionais, na Ásia e na Rússia, antes de o Brasil ser forçado a fazer flutuar a moeda no início do segundo mandato de Fernando Henrique - o evento que, mais do que qualquer outro, condicionaria as ações de seu governo e afetaria as relações do País com os vizinhos e com o mundo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não terá o luxo de três anos ou sequer de três meses antes de ser confrontado com eventos internacionais que testarão sua capacidade para governar e o obrigarão a fazer escolhas difíceis e desagradáveis.
Três semanas, ou pouco mais, é o tempo que Lula provavelmente terá para decidir se o Brasil apoiará uma intervenção dos Estados Unidos no Iraque, desta vez para desarmar o regime de Saddam Hussein. Ele sabe que a resposta não pode ser negativa.
Com sorte, a expedição punitiva que os EUA preparam contra Bagdá será executada sob mandato das Nações Unidas, o que dará ao novo presidente o álibi para justificar o apoio brasileiro a Washington, principalmente perante os militantes do PT e das demais agremiações de esquerda que o ajudaram a chegar ao poder e nutrem uma antipatia estrutural pelos EUA.
Três dias são, talvez, o tempo que a crise política na Venezuela dará ao novo presidente do Brasil para testar sua disposição a um novo protagonismo diplomático na busca de soluções para crises regionais, que ele anunciou há duas semanas ao despachar a Caracas seu assessor internacional, Marco Aurélio Garcia.
O narcotráfico, a guerra civil colombiana e seus reflexos na fronteira e nas grandes cidades brasileiras, onde o crime organizado exerce hoje parte do poder real, continuarão a ser desafios diários para quem estiver no Palácio do Planalto.
Menem
Na Argentina, que ainda parece longe de ver a luz no fim do túnel da crise, um eventual retorno do ex-presidente Carlos Menem ao poder, em eleições previstas para maio, pode azedar seriamente as relações entre os dois países e sepultar de vez o combalido Mercosul, que Lula quer ressuscitar.
No mundo das finanças internacionais, ao qual o Brasil está hoje mais exposto do que estava há oito anos, mede-se hoje em horas, e não em dias, o tempo das reações a decisões ou falta de decisões domésticas, que dependerão em parte de um Congresso dominado por partidos não representados no novo governo e de eventos internacionais que o País não controla, como uma alta dos preços do petróleo provocada por uma nova guerra contra o Iraque, a continuação da anemia econômica americana ou as repercussões de um eventual novo ataque terrorista de grandes proporções contra os Estados Unidos.
Nessa área, a consciência de que não há margem para erro e de que o Brasil não pode prescindir do apoio internacional, a começar pelo dos Estados Unidos, já levou Lula a dar a mais completa meia-volta da história recente da política brasileira.
Antes mesmo de tomar posse, o novo presidente adotou os elementos básicos da política econômica contra a qual fez campanha, abraçou o acordo que seu antecessor negociou com o FMI e estabeleceu relações mais amistosas com a direção do Fundo do que as que Fernando Henrique jamais teve nos primeiros anos de seu governo.
Lula comprometeu-se também a levar adiante as negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, que era até recentemente um de seus leviatãs prediletos. Por fim, no último dia 10 ele saiu de uma conversa de meia hora com Bush, o mais conservador ocupante da Casa Branca em décadas, dizendo que retornava ao Brasil “convencido†de que terá no líder americano “um aliado†para levar adiante as mudanças que quer promover no Brasil.
O contraste entre o mundo em que Fernando Henrique navegou e aquele que está à espera de Lula é reconhecido pelos dois principais assessores internacionais do presidente que parte. “O quadro econômico internacional é muito menos favorável do que era oito anos atrásâ€, disse o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia. “Em 1995, nós vivíamos um período de grande prosperidade, puxada pela economia dos Estados Unidos, e havia crédito.
Hoje, a situação é claramente mais difícil, a economia mundial atravessa um período de incertezas, há a aversão ao risco, e isso é complicado por um cenário político muito mais tenso, dominado pela preocupação com o terrorismo e pela nova agenda de segurança imposta pelos ataques de 11 de setembro contra os Estados Unidos e, no momento, pela iminência de uma guerra contra o Iraque.â€
O chanceler Celso Lafer lembra que, no início da era Fernando Henrique, “embora a crise mexicana já prenunciasse as dificuldades que viriam mais adiante, o mundo vivia sob um relativo otimismo das promessas de um mundo mais sensível à necessidade de cooperação entre o Norte e o Sul, que tinha surgido com o fim da guerra fria e em eventos como a Rio-92, a conferência da ONU sobre direitos humanos em Viena e a conclusão da Rodada Uruguai que levou à criação da Organização Mundial de Comércioâ€.
Havia também no ar a possibilidade de que a Europa, de um lado, e o Japão e a Ásia, de outro, emergissem como novos pólos de dinamismo econômico, fazendo contrapeso aos EUA. “Pouco se concretizou das promessas e o mundo é hoje mais unipolar do que nunca, com os EUA no controle absoluto da agenda política e estratégica e a economia global mais dependente do que antes da economia americanaâ€, nota um diplomata.
Lafer e Lampreia chamam a atenção para outra diferença entre 1995 e 2003. “O nosso entorno geográfico está hoje mais complicado, com situações sem solução visível na Venezuela, na Colômbia e particularmente na Argentina, que atinge fortemente o Mercosul e a estratégia regional que Fernando Henrique avançou ao convocar a primeira cúpula de líderes da América do Sul, em agosto de 2000â€, disse Lafer.
Para Lampreia, “a agenda de um bom relacionamento com os EUA também fica afetada pelos complicadores globais e regionais†que Lula enfrentará na cena mundial. Nesse cenário mais inóspito não há espaço, por exemplo, para o novo presidente levar adiante projetos inovadores de aproximação com a China, a Índia e a Rússia, e pautar-se por uma visão ingênua, dominante em setores do PT, segundo a qual tais iniciativas poderiam ser levadas adiante em oposição aos Estados Unidos.
Isso não interessa nem à China, nem à Rússia, nem à Índia, que têm seus próprios interesses em relação aos EUA, estão em regiões de conflitos e ocupam lugares mais importantes, na agenda estratégica americana, do que o Brasil. O menor grau de certeza que há hoje, em comparação com oito anos atrás, entre as nações industrializadas e mesmo nos organismos internacionais, quanto à correção do receituário liberal, é um raro fator que pode, eventualmente, atuar em favor do novo governo, se o cumprimento rigoroso do acordo com o FMI e um engajamento em negociações comerciais não produzirem os resultados prometidos de mais mercados para as exportações e maior crescimento econômico.
Mas a tolerância que existe aí para alguma dissonância é neutralizada pela atitude dos mercados de capitais, onde o apego à ortodoxia e a velocidade de resposta ao menor desvio continuarão a limitar o espaço para experimentos econômicos. Outra comparação positiva é, nas palavras de Lafer, “o país mais apresentável†da era Fernando Henrique, que foi reforçado pelo conteúdo democrático da eleição de Lula. Em sua relação com o mundo, o novo presidente provavelmente sofrerá, no entanto, em comparação com a figura de estadista que seu antecessor construiu e com a qual o Brasil passou a ser identificado no exterior.
A marca de Fernando Henrique foi ilustrada pelo título que o New York Times deu a uma reportagem que publicou no domingo, na qual fez um balanço francamente favorável de seu governo: “O presidente que parte deixa um Brasil estável.â€
Carisma
O traquejo internacional e o gosto pelo assunto, que consolidou nos meses que passou à frente do Itamaraty no governo de Itamar Franco, levaram Fernando Henrique a exercer um estilo de diplomacia presidencial nunca visto no País. Em seus oito anos no Planalto, ele fez mais viagens internacionais do que todos os seus antecessores somados e passou praticamente um ano nessas viagens.
Algumas dessas missões revelaram-se inconseqüentes. Um exemplo foi a busca da chamada Terceira Via, que desapareceu tão logo seu principal patrocinador, o ex-presidente Bill Clinton, saiu de cena. Mas a presença freqüente do líder brasileiro em foros internacionais e sua desenvoltura nessas viagens fortaleceram o capital da política exterior brasileira. Lula já disse que viajará menos, o que é uma decorrência natural não apenas da necessidade de ocupar-se com as questões domésticas como de sua falta de familiaridade - e a de membros-chave de seu ministério, como Antônio Palocci - com a linguagem da diplomacia e com línguas estrangeiras.
A atitude mais retraída do presidente não acarretará, necessariamente, a perda de espaços de interlocução: por certo a diplomacia presidencial dará lugar a uma atuação mais descentralizada e profissional do Itamaraty. Mas o que está claro é que o horizonte que se descortina para Lula oferece, sem nenhuma dúvida, mais riscos do que possibilidades.