“Eu (Tio Toninho), meu sobrinho Tico (companheiro de cantoria), e João Spedo (vereador do município), arealvenses natos, todos os anos vamos até o estado do Mato Grosso do Sul fazer uma pescaria.
O João é chamado de advogado da equipe: ele se encarrega de negociar com os donos das pousadas onde a gente permanece, retira as licenças de pesca e acerta a documentação do Ibama, que é para, na volta, não se ter problemas nos postos de fiscalização. No mais, resolve eventuais inconvenientes que possam acontecer durante a viagem, além de ser o nosso “Piloteiroâ€.
O Tico é ótimo motorista, bom cozinheiro, bom pescador e bom no violão. Nessa pescaria, ficamos alojados na Pousada de Dedé, ponto do 21, no rio Miranda.
Logo no primeiro dia de pesca, aconteceu um fato curioso. Pela manhã, preparamos as tralhas, pegamos nosso velho motor de popa (que fazia mais ou menos um ano que não era utilizado) e colocamos o “bruto†no barco. O João, com toda a sua categoria, fez com que ele funcionasse de imediato. Embarcamos, os três, e começamos a navegar rio abaixo, na esperança de fisgar belos exemplares, como fazíamos todos os anos.
Entretanto, a alegria durou pouco. Após termos navegado uns dez minutos, o motor começou a falhar e afogou. Fizemos passar a “curva da pedra grandeâ€, bem longe de onde saímos.
Nós pensávamos encontrar alguma outra embarcação que nos rebocasse de volta, antes de pegarmos as corredeiras do “quebra linhaâ€, pois ali ficaria muito mais difícil.
Eis que surge, na margem esquerda de quem desce o rio, um pescador com três varas de bambu armadas. De repente, apareceu um biguá voando rente à superfície do rio; mergulha e sai voando fisgado no anzol do pescador. Este, com certeza, havia iscado um peixe pequeno para tentar um belo dourado, e o biguá apanhou-o para levar aos seus filhotes, por óbvio.
A ave saiu voando, desesperada, arrastando a vara sobre as águas e vindo em nossa direção. O Tico, que estava no bico do barco, pegou o bambu e segurou. Com o susto, o biguá fez volta de 180º e rumou rio acima, nos levando a reboque. Então gritei para o Tico: “segura firme que ele vai nos levar até a pousada.â€
Não deu outra, o biguá acelerou as batidas de suas longas asas e foi arrastando o barco que não era pequeno: media seis metros de comprimento por 120 cm de boca, 40cm de calado, mais o peso do motor - o causador de todos esses problemas.
A nossa preocupação era com uma pequena ilha que existe antes de se chegar à pousada; quando o rio está baixo, as pedras ficam de fora e os piloteiros são obrigados a passar pelo lado direito de quem sobre para pegar as águas mais profundas, coisa que o biguá dificilmente iria fazer.
Entretanto, o experiente João Spedo nos deixou um tanto tranqüilos; disse ter observado, quando desceu, que o rio estava bastante repontado e as águas estavam passando bem acima das pedras, o que nos permitia atravessá-las com tranqüilidade. Foi o que ocorreu.
Em seguida, levamos um susto; o biguá começava mostrar sinais de cansaço...
Mas logo avistamos o lindo bambuzal que margeia a pousada. Aí foi só alegria. O biguá fez seu último esforço, passou uns 20 metros da entrada do pesqueiro e caiu na água.
Foi o suficiente para que o João pegasse o remo e, deixando o barco rodar, encostou com firmeza na plataforma de embarque.
O Tico, rapidamente, puxou para dentro do barco o biguá desmaiado de tanta canseira tirando o anzol que lhe prendia à vara.
Eu, então, peguei o kit de primeiros socorros, que a gente carrega no barco, e fiz um curativo no pequeno ferimento deixado pela fisga. Em poucos minutos o biguá recuperou suas energias e saiu em direção ao seu habitat.
O senhor Edmundo, esposo da dona Neuza, pais do garoto Dedé, proprietários da pousada, ficou abismado com o que viu; disse que durante todo o tempo em que vive à beira do rio, nunca presenciou coisa semelhante!!!
De fato, não é comum, mas acontece...†(Antonio Nicolin Filho é pescador e contador de histórias)