“Criar empregos e combater a fomeâ€... para que o País não continue sendo “uma nação injusta, assistindo passivamente o sofrimento dos pobresâ€. Esses objetivos citados no discurso de posse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu perseguir com verdadeira “obsessão†em seu governo, podem parecer piegas numa leitura apressada, mas sendo realizados produzirão o “salto de qualidade†que os brasileiros pediram nas eleições de outubro.
Foi um discurso duro e realista na abordagem das condições sociais e da insegurança em que vive a maioria da população, empobrecida nos últimos dez anos de baixo crescimento da economia, de aumento do desemprego, de queda dos salários, e de piora na distribuição de renda. Ao mesmo tempo um discurso comovente na simplicidade com que o presidente assume a sua condição de retirante da fome no Nordeste brasileiro, mas também de toda uma trajetória de pobreza e luta vitoriosa no sudeste industrializado, de metalúrgico e líder de trabalhadores à presidência da República.
Essa árdua e longa trajetória imprime autenticidade à sua fala quando se compromete a empenhar seu governo numa guerra sem tréguas à miséria, pedindo paciência mas também garantindo persistência até que possa produzir as mudanças “sem atropeloâ€. Há uma grande dose de realismo tanto do Presidente quanto de sua equipe econômica, no reconhecimento que a erradicação da fome e a redução da pobreza não dependem do aumento de gastos com os chamados “programas sociaisâ€, mas antes com políticas que estimulem o setor privado a expandir a produção e criar empregos.
É evidente que a prioridade do combate à fome vai exigir um tratamento à parte em matéria de gastos, mas isso não significa que tenhamos que recorrer a recursos fora do exercício da programação orçamentária nos limites aprovados pelo Congresso Nacional.
A diretriz - a meu ver correta - para o ano de 2003 é buscar o equilíbrio fiscal pelo lado do corte das despesas públicas, que reduz a demanda do governo. É o oposto do que realizou o governo FHC que foi leniente com as despesas do governo, aumentou impostos e a dívida publica e elevou os juros, cortando a demanda do setor privado e portanto inibindo a produção que garante os empregos e reduz a pobreza.
O discurso inaugural do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de linguagem sóbria e forte conteúdo, sem devaneios retóricos a que estivemos submetidos nos últimos tempos, nos estimula a acreditar que seu governo promoverá as mudanças que ajudarão a retomada do crescimento e do emprego, que é a forma eficiente de acabar com a fome e permitir a melhora efetiva dos padrões de vida dos cidadãos brasileiros. (Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP)