O ano de 2002 terminou em baixa para montadoras e concessionárias. O balanço das vendas totais de veículos no varejo, divulgado semana passada pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores, apontou queda de 1,3% no setor.
A retração do segmento de automóveis e comerciais leves foi ainda maior: 7,7%, o que representa 115 mil unidades a menos que as comercializadas em 2001. Os caminhões e ônibus também não têm muito o que comemorar, pois fecharam o ano em queda de 5,5%. O único setor a destoar dos índices negativos foi o de motocicletas, que registrou crescimento.
Quanto ao mix de produtos, as vendas de carros médios se estabilizaram num patamar de participação de 37%. “Isto representou um incremento nas vendas de 11,5%, alcançando 330 mil unidades. Com isto, esperamos aumento de rentabilidade na apertada margem dos concessionáriosâ€, disse Hugo Maia, presidente da Fenabrave.
Apesar dos números negativos, concessionárias bauruenses apostam na retomada do crescimento das vendas em 2003. O gerente Aldo Deienno Júnior, da Meta/Fiat, acredita nesta hipótese devido à necessidade do mercado dar uma “reviravoltaâ€. â€œÉ absolutamente necessário que isso ocorra, pois está ficando difícil trabalhar nessas condições do mercadoâ€, avalia.
Para Aldo, uma das ações emergenciais nesse sentido seria a diminuição do desemprego e a real conquista da estabilidade econômica. “Muitos consumidores deixaram de investir na compra de um veículo devido ao medo de perder o emprego. Por isso, em 2002 houve uma grande reversão das vendas a prazo para as à vista, o que há muito tempo não acontecia. Só adquiriu um carro quem realmente tinha dinheiro.â€
Entretanto, o gerente ressalta que 2002 não foi um ano tão ruim para o setor se comparado com as crises econômicas que o País atravessou. “Por tudo que enfrentamos, como a alta do dólar, a indefinição eleitoral e a intensa especulação, o ano passado foi até positivoâ€, considera ele.
Além disso, acrescenta Aldo, com o novo governante do Brasil já definido e passada a época de transição, novas e boas perspectivas para o setor automotivo, como investimentos, já começam a ser cogitados.
Já sobre o Plano de Sete Metas do governo Lula, Aldo acredita que as propostas são possíveis de serem executadas a longo prazo. “Hoje até já exportamos motores e cada vez mais indústrias se instalam no Brasil, pois os governos oferecem boas condições e nossa mão-de-obra é barata e qualificada. Por isso, creio que as idéias são perfeitamente realizáveisâ€, frisa ele.
Tendência
O gerente de vendas da Baurucar/Volkswagen, Renato Tambara Neto, segue a mesma linha de raciocínio de Aldo ao considerar que 2002 foi, até certo ponto, um ano bom para o setor, principalmente nos últimos três meses. “Nesse trimestre conseguimos compensar a queda registrada entre os veículos zero quilômetro com a comercialização de usados e seminovosâ€, explica ele.
E essa tendência deve continuar durante o primeiro semestre de 2003, conforme Renato. Ele acredita que isso ocorra devido, principalmente, à manutenção dos atuais patamares de taxas de juros. “Como não vislumbramos uma queda desses índices, creio que ela se estenderá, no mínimo, nos seis primeiros meses deste anoâ€, considera. “Mas no segundo semestre as vendas devem ganhar novo fôlegoâ€, completa.
O gerente destaca, ainda, que as metas do governo Lula para o segmento automotivo são ousadas e não alimentam números utópicos. Entretanto, ele condiciona o sucesso das propostas ao êxito no controle da inflação que começa a surgir e na alta do dólar. “São fatores que influenciam muito na hora da venda de um carroâ€, frisa ele.
Recuperação
Para o empresário Nilson Simão, um dos proprietários da concessionária Simão/Ford em Bauru, se a marca repetir o desempenho comercial obtido no ano passado já será positivo. “No primeiro semestre não fomos bem e atingimos os mesmos números comparados com igual período de 2001, o que já foi uma vitória. Mas, no último trimestre nos recuperamos e fechamos o ano 20% acima dos números de 2001.â€
Simão atribui boa parte do resultado ao fato de praticamente todos os segmentos da linha contarem com novos produtos, como o Ka reestilizado, o Focus automático e o Mondeo. “Fora o mercado das picapes, onde também estamos muito bem posicionadosâ€, afirma ele.
As exportações também colaboraram, conforme o empresário, mesmo após a crise na Argentina, maior mercado externo da Ford. “Elas caíram cerca de 60% naquele país, mas o estabelecimento de novo acordo com o México fez com que a marca recuperasse o vigor no setorâ€, diz Simão.
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Usados x Juros
Para o garagista bauruense Vifrano Macário Gazoli, um dos organizadores dos feirões de veículos usados realizados na cidade, se as taxas de juros praticadas em 2002 permanecerem em 2003, a tendência é que o mercado do segmento piore ainda mais. “Apesar de ser um otimista por natureza, creio que o volume de vendas aumentará somente com queda considerável dos juros para os financiamentosâ€, prevê ele.
Segundo Gazoli, ano passado os revendedores particulares de autos já sentiram os efeitos das taxas. “Em termos de lucratividade e de comercialização, os resultados foram inferiores aos de 2001 devido, principalmente, à intensa oscilação dos juros no mercadoâ€, afirma. “Como 70% de nossas vendas são financiadas, isso nos afetou diretamenteâ€, complementa.
Curiosamente, conforme Gazoli, quem adquiriu um auto usado no primeiro semestre de 2002 “ganhou†dinheiro. “Isso porque os juros eram muito menores nessa épocaâ€, diz.
Ele ressalta, entretanto, que os feirões organizados em 2002, que reuniram dez garagistas bauruenses, garantiram “fôlego†ao segmento. “Vendemos nas quatro edições cerca de 280 veículos, com uma média de 70 por evento e totalizando, para cada empresa, pelo menos 30 carros comercializados durante o anoâ€, finaliza ele.
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Plano será base da política
O Plano de Sete Metas para o setor automotivo no Brasil, divulgado pela agência AutoData e apresentado pelo ministro da Fazenda Antônio Palocci Filho, servirá de base para a implantação da política do setor no governo Lula.
Entre outras propostas, o plano idealiza para o País, em 2006, a fabricação de 3,2 milhões de carros por ano, ter pelo menos 320 mil empregados na área e exportar, no mínimo, 1 milhão de veículos, com um superávit de US$ 3,4 bilhões na balança comercial.
A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) ainda não tem posição oficial a respeito, mas manifestou interesse no Plano. Tanto que seu presidente, Ricardo Carvalho, vê nele boas intenções e já estuda propostas de ajustes.
Além disso, ele acrescenta que para a volta das Câmaras Setoriais e do Contrato Coletivo de Trabalho, outros itens do Plano, a primeira ação nesse sentido deveria partir do governo com a realização das reformas tributária, previdenciária e trabalhista.
Entretanto, o presidente, que avalia positivamente as experiências do setor durante os anos 90 com as Câmaras Setoriais, duvida da sua eficiência no atual contexto político e econômico do País.
As montadoras também consideram positivas as idéias do Plano de Sete Metas, mas fazem algumas ressalvas. Alberto Ghiglieno, superintendente da Fiat na América Latina, destaca que a proposta do contrato coletivo necessita ser melhor estudada.
Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luís Marinho, além das vantagens já mencionadas, o Plano deverá criar um setor organizado de reciclagem dos veículos desativados pela inspeção veicular, reutilizando aço, plástico, alumínio e borracha.
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Impostos e financiamento
O empresário Nilson Simão considera viável o Plano de Sete Metas para o setor, mas entende que outras duas ações poderiam garantir o aquecimento nas vendas e a competitividade entre as montadoras.
Uma delas é a redução da porcentagem de impostos sobre o preço final dos veículos. Simão exemplifica que, atualmente, excetuando-se os automóveis populares, a carga tributária chega a representar 50% do valor de um carro. “Se ela caísse para 25% e a produção dobrasse, o governo não perderia nada, uma vez que as vendas aumentariam e compensariam a arrecadaçãoâ€, raciocina ele.
A outra medida é um financiamento, conforme Simão, muito praticada em países europeus: o leasing back. Através dele, é possível financiar até 50% do custo do carro em 36 meses. Quando a 36.ª parcela é paga, o banco pergunta se o veículo ainda interessa à pessoa e, em caso positivo, financia o resto em outros três anosâ€, explica.
Entretanto, Simão acrescenta que tal modalidade de financiamento dá certo na Europa em razão dos juros baixos e da estabilidade da economia. “Naqueles países não há surpresas tão gritantes no cenário econômico como ocorre no Brasilâ€, enfatiza ele.
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Comércio de motos cresce 13%
Crescendo desde 1992, o segmento de motos chegou ao final de 2002 com 770 mil unidades vendidas, um aumento de 13,4%. O setor de motos negociou, somente na primeira quinzena de dezembro, 33.210 unidades, contra 30.861 no mesmo período de novembro, demonstrando crescimento de 7,61%.
Já o volume de vendas de caminhões no varejo retraiu 11,69% somente na comparação dos primeiros 15 dias de dezembro de 2002 com o mesmo período de novembro, diminuindo de 2.780 unidades para 2.455. No acumulado do ano, e somado ao segmento de ônibus, as vendas nos setores recuaram mais de 5%.