Lençóis Paulista - Um recém-nascido de menos de um dia foi subtraído do Hospital Nossa Senhora da Piedade, na cidade de Lençóis Paulista, na madrugada de ontem. Lucas Gabriel foi levado por uma mulher de 21 anos que já passou por duas gravidez malsucedidas e sonha em ter um filho. Ela foi autuada em flagrante por subtração de incapaz e o bebê foi resgatado com vida em um bairro da periferia da cidade.
Foram 11 horas de desespero para o casal José Antônio de Andrade e Maria Aparecida Francisco e seus familiares. A mãe, mesmo operada e sob efeito de medicamentos não aguentou ficar no quarto 3 do Sistema Único de Saúde (SUS) e foi para a porta do hospital esperar a chegada do filho que ela nem sabia se iria voltar.
Entre lágrimas e soluços ela contou que rogava a Deus para que trouxesse o filho de volta. “Ele estava dormindo no berço ao meu lado. Eu tive fortes dores da cesária e pedi um medicamento para dor. Dormi cerca de 20 minutos e quando acordei o meu filho tinha sido levadoâ€.
De imediato, a mulher que já é mãe de uma menina de um ano e meio, pensou que as enfermeiras tinham levado o rebento para dar alguma medicação. “Quando olhei no berço e não vi o bebê chamei a enfermeira e ela disse que não tinha levado ele. Mesmo com dor, fui até o orelhão e liguei para o meu marido. Eram umas das 3 horas.â€
O pai correu para o hospital e tentou saber o que tinha ocorrido. “Eles não sabiam o que tinha acontecido. Foi minha mulher que ligou para mim. O hospital não me comunicou do desaparecimento de meu filho. Acho que eles demoraram para tomar providências,†reclamou.
José Antônio questionou a segurança do hospital. “Acho um verdadeiro absurdo o que está acontecendo. Como um estranho pode entrar no hospital e levar um bebê sem ser visto.â€
O mais estranho, na opinião do pai, é que o quarto era coletivo. “No quarto haviam mais quatro mulheres, mas ninguém viu nada. Quero meu filho de voltaâ€, reclamava.
O pai garantiu que não ficaria calado e tomaria as devidas providências. “Estou chocado com a situação. Ainda não sei o que vou fazer. Quero o bebê de volta.â€
Tem que voltar
A avó materna do pequeno Lucas Gabriel, estava em estado de choque. “A gente vê essas coisas na televisão e não imagina que possa acontecer com a gente, ainda mais numa cidade do interior.â€
Revoltada com a falta de segurança do hospital ele protestou. “O hospital não dá satisfação. Estamos desesperados, está sendo um pesadelo para nós. O menino nasceu às 9h de quinta-feira e nós o vimos uma só vez.â€
O avô, José Francisco não se conformava com o desaparecimento do neto. â€œÉ um verdadeiro absurdo. O hospital diz que tem segurança. Que segurança é essa que deixa levar um recém-nascido do quarto? †questionou.
Revoltado, ele desabafou dizendo que no dia anterior esteve no hospital para ver a filha fora do horário de visitas e não pôde entrar. “Eles não deixam a gente entrar cinco minutos depois do horário permitido. Mas deixaram um estranho levar meu neto.â€
Cobertos de razão
A enfermeira chefe do Hospital Nossa Senhora da Piedade, Georgina Galli admitiu que a família estava com a razão. “Eles estão cobertos de razão. Nunca iríamos imaginar que um recém-nascido seria levado daqui. Isso nunca aconteceu nos 53 anos de existência do hospital.â€
A enfermeira explicou que o hospital tem duas entradas. “A portaria da frente que fica fechada durante a noite e madrugada tem um vigia. A outra entrada é pelo Pronto-Socorro Municipal. A pessoa pode ter entrado por lá e saído pelos fundos que está em reforma.â€
Na opinião dela, as auxiliares e supervisoras que trabalhavam no horário tomaram as providências necessárias. “Elas procuraram o bebê dentro do hospital. Não encontraram. Avisaram a polícia e entraram em contato comigo.â€
Ela explicou que Lucas Gabriel foi amamentado por volta das 2h. “Foi trocado e como a mãe reclamava de dor, a auxiliar fez uma injeção para abrandar a dor. Ela dormiu e minutos depois acordou e não viu o bebê. As auxiliares estavam no corredor e não viram nada de diferente.â€
Galli acha que a segurança do hospital não precisa ser reforçada. “Isso aqui é um hospital e não um presídio. Nunca pensamos que isso pudesse acontecer. As auxiliares foram ouvidas pela polícia.â€
Segundo a enfermeira, o hospital vai aguardar as investigações policiais para tomar alguma providência.
“Fico com eleâ€
A subtração do recém-nascido criou pânico entre a população de Lençóis Paulista. A partir do momento em que a rádio local noticiou o desaparecimento de Lucas Gabriel, as mães que tinham filhos internados e aquelas que estavam com os filhos para serem internados ficaram alertas.
A avó de Felipe, Creusa de Souza Fonseca, chegou da fazenda Farturinha, região de Lençóis Paulista, com indicação para internar o neto de um ano e dois meses. “Vou ficar com ele. Não posso deixá-lo aqui. Eu ouvi que levaram uma criança desse hospital.â€
Apesar do neto estar com gripe e febre alta, a avó relutava na internação. “Só vou interná-lo se eu puder ficar junto com ele. Do contrário eu levo ele comigo.†A avó ficou mais tranqüila quando soube que poderia ficar ao lado da criança, enquanto esta recebia atendimento médico.
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Reencontro comovente
Por volta das 14h o carro da delegacia de Lençóis Paulista subiu a rampa do hospital e de seu interior saiu o delegado Luiz Cláudio Massa com Lucas Gabriel no colo. Emocionado, ele tentou entregar o bebê para a mãe que ansiosa aguardava a chegada, mas uma outra parente entrou na frente e pegou o menino primeiro, passando em seguida para a mãe.
A emoção tomou conta de todos. Até mesmo os policiais não conseguiram segurar as lágrimas. “O importante era resgatar a criança com vida. Isso nós fizemos. Agora vamos procurar o responsável pela subtração.â€
O pequeno Lucas Gabriel que não sabia o que estava ocorrendo, foi levado para a enfermaria, onde as funcionárias também se derreteram em lágrimas. O menino foi pesado e não tinha perdido peso, estava com os mesmos 3,2 quilos que nasceu.
Mãe e filho juntos voltaram para o quarto 3 para o repouso merecido, enquanto a família festejava a chegada do menino desaparecido por 11 horas.
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Corrida contra o tempo
O delegado titular de Lençóis Paulista, Luiz Cláudio Massa confessou ontem que o caso do desaparecimento do recém-nascido o emocionou. “Corri contra o tempo. Temia que a pessoa que estivesse com a criança pudesse matá-la. Os casos envolvendo crianças sempre nos preocupam muito. Este mais ainda, porque era um recém-nascido.â€
Para ele, encontrar o bebê dormindo por volta das 13h foi muito emocionante. “Ele parecia um anjinho dormindo. Quando peguei ele no colo e senti que ele estava vivo, me emocionei.â€
Massa confessou que se surpreendeu com a subtração do recém-nascido. “Não é um fato que ocorre todos os dias, muito menos na cidade de Lençóis Paulista. O primeiro passo da investigação foi traçar o perfil da pessoa que havia subtraído o pequeno Lucas Gabriel.â€
Ao estudar o caso e ouvir os familiares, o delegado chegou à conclusão que o recém-nascido puderia ter sido subtraído por uma mulher doente. “O tráfico de crianças não é comum na nossa região.â€
Depois de ouvir algumas funcionárias, a equipe de investigação foi acordar o vigia do hospital, que teve seu nome preservado. “Chegamos na casa dele e ele nos contou que uma mulher tinha rondado o hospital durante a madrugada. “Ele contou que a mulher passou e voltou pedindo água.â€
A desconhecida teria ido até o Pronto-Socorro para tomar água e o vigia teria visto quando ela retornou e foi em direção aos fundos do hospital. “Ele forneceu informações importantes. Foi ele quem disse que a moça era filha do “Brisolaâ€.