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Depois do Carnaval


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Lula assumiu em clima de absoluta normalidade institucional sustentada pelo apoio da expressiva maioria da sociedade brasileira. Passada a ressaca de tantas festas começa o banho de realidade. O choque maior que a ducha fria é descobrir que o Brasil somente volta a funcionar à plenitude depois do Carnaval. Problema de ordem cultural. Mesmo que o presidente e seus ministros queiram mostrar serviço, perceberão logo que do segundo escalão em diante, pára tudo. O Cartão Fome-Zero não vai poder ser despachado para o Piauí porque o mirim da expedição está em férias. No máximo as coisas seguirão a passos lentos durante a maior parte do verão. Como no romance de Teodorakis, “todos foram para a praia”.

Essa característica cultural própria do subdesenvolvido pode ter o seu lado positivo. Os setores radicais também veraneiam e ficamos livres de bobagens monumentais como a que prega a “refundação do Brasil com o PT no poder.” A expressão foi inventada por Marilena Chauí, ideóloga do partido a qual ninguém nega inteligência, dotes culinários e seus conhecimentos sobre a filosofia de Spinoza. Ganhou rápida circulação entre os corifeus que compõem o núcleo do novo quadro dirigente nacional.

Com a esquerda radical na praia, Lula poderá elaborar os primeiros movimentos políticos de consolidação daquilo que já antecipava diante da perspectiva de vitória: ampliar o seu quadro de apoio e fazer caber nele tudo o que é possível.

Limitações precisam existir para não transformar a estrutura de sustentação política num balaio de caranguejos. O PMDB, por exemplo, ficou de fora face às exigências difíceis de serem satisfeitas. Mesmo que assim não fosse restariam dúvidas sobre a relação custo/benefício. Dois ministérios já e muito para um partido esfacelado. O PSDB, o grande derrotado, como não poderia deixar de ser, terá que cumprir sua missão de “sparring”. Vai apanhar e sequer poderá reagir a altura enquanto as pessoas acreditarem no novo governo. Nesta fase inicial qualquer crítica pode ser interpretada como tentativa de boicote. A fase de transição foi civilizada, pacífica o quanto possível. Lulinha paz e amor disse a FHC que ele teria um amigo no Palácio do Planalto. Isso comove.

O que o PT fez de melhor até a pós-posse foi demonstrar maturidade em sua política de alianças. Conseguiu unir chimangos e maragatos, monarquistas e republicanos, stalinistas e trotskistas, noroestinos e baqueanos. Fez as combinações possíveis na química e alquimia da política brasileira. Segue a tradição brasileira de conciliação que vem desde a Primeira República. A velha política do compromisso, entendido no seu sentido sociológico. E essa conciliação, pelo menos no início do governo, é necessária.

Joaquim Nabuco escreveu em Um estadista do Império que “a fatalidade das revoluções é que sem os exaltados não é possível fazê-las e com eles é impossível governar”. Vale para o PT. Sem os radicais não teria se firmado como uma organização política consistente, desde a sua fundação. Depois de Tancredo passou a ser elogiado pelos setores conservadores da sociedade que viam no PT o único partido “de verdade” no Brasil. Menos pelo conteúdo ideológico do que pela sua coerência programática. Agora o PT é governo e a conversa muda de tom. Primeiro é preciso ganhar governabilidade para, aos poucos, serem realizadas as reformas necessárias e na medida do possível.

Lula e a inteligentzia que o acompanha sabem disso. O PT não tem direito de errar porque seria frustrante para o povo, a começar pelos mais sofridos. Que Deus os ilumine. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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