Se você é daquelas pessoas que vive reclamando dos problemas que têm e está sempre de mau humor, então é porque ainda não conhece Angela Paiva. Ao lado de sua inseparável cachorrinha da raça cocker spaniel, chamada Sacha Marie Danabian, ela percorre com seu triciclo motorizado as principais ruas e avenidas bauruenses vendendo balas.
Essa foi a maneira que ela encontrou após mudar-se, há cerca de um ano, da Capital paulista para Bauru para conseguir alguma fonte de renda extra. Mesmo possuindo o curso técnico de patologia clínica, optou por atuar como autônoma comercializando doces de uma tradicional empresa do ramo da cidade.
Todo esforço de Angela, que possui paralisia nas pernas, é para garantir o sustento da família, residente no Geisel e que se resume a ela e à sua mãe, que recebe uma pequena aposentadoria, além da cachorra. Outra parte do que consegue ganhar com a venda das balas vai para a manutenção da cadeira de rodas movida a bateria, que adquiriu após 15 meses de suadas prestações pagas.
“Manter o triciclo rodando é uma das principais dificuldades, mas é a única forma que encontrei para sobreviverâ€, afirma. Angela explica que necessita dispender periodicamente de recursos para a troca da bateria da “motinha†devido ao pouco tempo de vida útil. “Ela não dura mais que três meses, que é o tempo máximo de garantia dado ao equipamento. Por isso, tenho de gastar freqüentemente para substituí-laâ€, diz.
Outra parada dura para Angela, que trabalha em dias alternativos para poder descansar a coluna, é enfrentar as despreparadas e desadaptadas calçadas para os deficientes físicos. “Além da maioria não possuir as guias rebaixadas para facilitar a passagem de cadeiras de rodas, há buracos de todos os tipos e por todas as partesâ€, critica.
“Segurança†particular
Quem age como um verdadeiro “segurança†particular para Angela é a cachorra Sacha, sua fiel escudeira que não consegue abandoná-la um minuto sequer.
Seu carinho é tão grande para com Angela que basta um pequeno movimento para avançar em uma eventual ameaça à dona. “Ela não consegue ficar sozinha de jeito nenhum e, às vezes, um pequeno gesto ou até aperto de mão já é suficiente para provocar nela uma reação inesperadaâ€, garante.
E foi graças ao extremo amor que dedica e sente por sua dona que Sacha, atualmente com 4 anos de idade, já evitou até roubos contra Angela. Dois rapazes, que estavam escondidos e a esperavam entrar em sua casa, tentaram arrancar seu celular à força do cesto onde acondiciona as balas no triciclo.
Ao perceber a ação dos larápios, Sacha imediatamente avançou naquele que tentava pegar o celular e mordeu seu braço com força, derrubando-o na calçada. “O pior é que o ladrão ainda teve o disparate de dizer que era proibido andar pelas ruas com cães bravosâ€, conta Angela.
Mas não é apenas Sacha que nutre um sentimento especial por sua dona. Angela também a trata como uma verdadeira filha. Prova disso é que o local escolhido para a realização, ontem, da reportagem do JC foi uma clínica veterinária. Como chovia e a cachorra acabou molhando-se, a preocupada Angela providenciou um banho ao seu animal de estimação. “Tenho medo de que ela acabe pegando um resfriadoâ€, justifica.
Lição de vida
Acima de todas as suas qualidades, Angela é uma pessoa extremamente otimista e com uma extraordinária vontade de viver. Por isso, ela afirma não saber explicar os motivos de ver poucos deficientes físicos trabalhando em Bauru.
Diante de tal constatação, Angela enfatiza que pessoas portadoras de necessidades especiais, dos menores aos maiores graus, devem encarar a vida com naturalidade. “Somos normais em todos os sentidos que se avalie. A partir do momento em que temos um problema, seja ele o menor possível, nada justifica não agir com normalidade. Anormal seria se tivéssemos duas cabeças ou quatro pernasâ€, finaliza Angela.