Quinta-feira, 2/1/2003, 9h15 da manhã. Parece uma segunda-feira. Dia parado. Sem movimento. Até a cidade teima em não querer acordar. Muitas lojas ainda fechadas. Com meu carro, subo a rua Rio Branco, nas proximidades com a avenida Rodrigues Alves. Antes de chegar, percebo que o farol vai fechar. Observo as esquinas. Sempre existe alguém entregando panfletos. Parece tudo normal. Apenas um homem, 1,67 altura, 49 anos, 54kg, ligeiramente mestiço (referências aproximadas do tipo físico visível), sentado na esquina.
O farol fica vermelho. Sou obrigado a parar. Lentamente procuro levantar o vidro elétrico da porta, com um sentimento de medo. Antes que o vidro fosse totalmente fechado, ele chega:
- Bom dia!! Como foram suas festas de fim de ano? Respondo: - Bom, sem grandes loucuras, apenas algumas champanhes e vinhos. Ele parece querer falar mais alguma coisa, e tenho um pressentimento que talvez vá pedir dinheiro. É sempre assim. Quando estamos parados com o carro em qualquer esquina de grande movimento, sempre tem alguém pedindo dinheiro (crianças principalmente, jovens, adultos, velhos).
Ele abre sua mão esquerda e percebo duas moedas de 10 centavos. Rapidamente ele me diz:
- Preciso de 25 centavos para completar e comprar passagem.
Sempre carrego moedas e duas ou três notas de 1 real na lateral da porta do meu carro. A princípio tenho resistência em dar dinheiro para estas pessoas. Mas confesso que o emocional fala mais alto. Um dia desses me disseram que numa situação como esta, pode acontecer que Jesus esteja testando seu coração, sua bondade. E fico pensando. Procuro entre as moedas o que ele pediu. Uma moeda de 25 centavos reluzente, novinha. Com o vidro da porta quase fechado, entrego rapidamente a moeda ao desconhecido senhor. Ao que ele me diz:
- Muito obrigado!! Um bom 2003 para você.
Respondo: - Tenho certeza!!
Ele retruca: - Certeza, não!! Vai ser. E não se esqueça: use sempre a inteligência para conseguir o que quer.
Fiquei pensando: qual a diferença entre certeza e vai ser? Para mim, certeza e vai ser são as mesmas coisas. Mas para aquele homem, parecia existir uma diferença. O farol abre. Não dá tempo de perguntar qual a diferença. Importaria? Qual a diferença? Não faria dele menos pobre ou dos meus sonhos uma certeza. Sigo meu caminho com o pensamento rápido de que se ele tivesse pedido um valor maior, com certeza eu daria uma nota de 1 real ao ilustre desconhecido. (José Aparecido Bordão Alves - RG: 6.828.143 - jbordao@uol.com.br)