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'Façam o que digo, não o que fiz'

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

A comerciante - hoje bauruense - Miriam Aparecida Furlanetto não faz questão de esconder de ninguém que em sua juventude, nos idos da década de 60, participava de “rachas” na avenida Cruzeiro do Sul, em plena zona norte da Capital paulista.

Daquela época de transgressões juvenis, muitas lembranças, a maioria negativas, ficaram marcadas para sempre em sua memória. Entre elas, as dos vários acidentes durante os “rachas”, responsáveis por mortes e um incalculável número de praumas em seus praticantes.

E, graças ao choque provocado pelas tragédias durante as competições ilegais nas vias paulistanas, a então jovem Miriam e seus colegas de “rachas” tomaram uma decisão que seguramente salvou suas vidas: em vez de disputar nas ruas, resolveram formar uma equipe, no início da década de 70, para correr no autódromo de Interlagos.

Depois de formada a escuderia, apelidada de “N.H.A.C.A.” - sigla que resume Nunca Houve Anos Como Agora -, Miriam nunca mais teve o desgosto de presenciar acidentes e mortes, mesmo competindo em altas velocidades com outros carros no circuito utilizado atualmente por várias competições automobilísticas, como a Fórmula 1.

Além disso, uma prova de que os ex-rachadores, principalmente Miriam, mudaram para valer suas mentalidades e comportamento no trânsito podia ser vista nas regras para integrar a escuderia. “Só ingressava nela quem não tivesse multa por excesso de velocidade e demonstrasse não ser adepto de arruaças. Caso contrário, era imediatamente excluído”, conta ela.

“Aprendemos que, dirigindo como loucos pelas ruas, estaríamos colocando não só a vida dos outros em risco, mas também as nossas. Por isso, trocamos as vias da cidade pelo autódromo, que é o lugar correto para quem quer correr”, considera Miriam, que hoje, já estabelecida em Bauru com sua família desde 1996, arrepia-se diante da simples menção da palavra “racha”.

“Instrutora”

Por isso, e espelhando-se em seu passado, é que Miriam atualmente faz de tudo para transmitir a seus filhos a importância de dirigir com responsabilidade no trânsito. “Quero que eles façam o que digo, não o que fiz”, enfatiza ela. “Quem dirige em alta velocidade ou pratica rachas pelas ruas está fadado a dois destinos: matar ou morrer”, acrescenta.

E foi justamente com essa consciência que a comerciante bauruense chegou ao ponto de ensinar, desde pequenos, seus filhos a guiarem automóveis. Tanto que um deles, o caçula Ricardo, logo aos sete anos já recebia as primeiras noções de direção da “instrutora” Miriam. “Pretendia que, quando tirassem as carteiras de habilitação, não saíssem pelas ruas se achando os donos do mundo ou fazendo papel de palhaços e irresponsáveis.”

Na “cartilha” de regras ao volante da “professora” Miriam, cautela e atenção são os pontos básicos. “Para aprender a dirigir, o primeiro passo é prestar atenção em como se guia. Depois, é tocar com cautela, sem velocidade”, ensina ela.

Para Miriam, outra “lição” importante que lecionou a seus filhos é a consciência de que o carro é uma máquina que pode matar devido ao comportamento do motorista ou à falta de manutenção. “Quem tem de conscientizar-se é quem está dirigindo, pois o automóvel não tem a capacidade de raciocinar. Além disso, este também falha, pois pode ter um pneu furado ou ficar sem freios”, alerta.

Na “escola” de Miriam também não há lugar para exibicionismo gratuito nas ruas. Por isso, atos como sair com o veículo “cantando” pneu não são tolerados pela comerciante. “Quem gosta de aparecer poderia mexer ou transformar seu veículo para deixá-lo mais bonito. De repente, aquele aparecido que teima em se mostrar irresponsavelmente pode terminar ou colocar pessoas em um caixão”, considera ela.

Outro ensinamento que Miriam faz questão de deixar claro a seus herdeiros é dirigir apenas o automóvel deles, e não de outras pessoas. “O carro é um bem muito particular. É como uma cueca, que não deve ser emprestada para ninguém”, destaca. Ela justifica sua posição argumentando ser uma medida preventiva. “Além dos riscos de um acidente, é melhor arcar com o prejuízo no seu veículo do que de outro.”

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Lições aprendidas

O jovem Ricardo Furlanetto, um dos dois filhos de Miriam, considera ter aprendido as lições ensinadas por sua mãe ao volante. Para ele, o mais importante foi ter adquirido a consciência de dirigir com segurança no trânsito.

Prova disso é que até hoje o único acidente em que Ricardo se envolveu não foi provocado por ele. “Bateram em mim”, ressalta. Mesmo assim, Furlanetto, ainda, não se considera um bom motorista. “Até aquele que podia ser considerado como o melhor de todos morreu dirigindo”, afirma, referindo-se ao piloto brasileiro Ayrton Senna, morto em um acidenpe em maio de 1994.

O marido de Miriam, Rogério Orlando Furlanetto, é outro que também aprova com louvor a iniciativa da esposa. “Sempre incentivei, pois não é qualquer pessoa que se dispõe a ensinar os filhos a guiar”, enfatiza.

Para ele, um dos aspectos mais importantes das “aulas” dadas foi que os filhos foram estimulados a obedecer seus limites. Ex-corredor de kart, Rogério garante que nunca participou de “rachas”, pois entende que lugar de corredor é na pista. â€œÉ nela que quem gosta de provar que é macho deve ficar”, conclui ele.

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