Bairros

Fortunato: um projeto pela metade

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Criado oficialmente em 1993, o Projeto de Desfavelamento, que previa a extinção de 60% das favelas da cidade, não conseguiu atingir plenamente o seu objetivo. Dez anos depois de ser lançado, ele ainda está inacabado e com apenas metade das casas construídas e ocupadas. Diante disso, as favelas voltaram a se proliferar na cidade e, atualmente, são contabilizadas 15 espalhadas por diversos bairros, com aproximadamente 4 mil moradores.

A idéia inicial do projeto era erradicar 60% dos barracos existentes na cidade. Para isso, seria construído um núcleo habitacional com toda a infra-estrutura, como rede de água, energia elétrica, guias, sarjetas e pavimentação asfáltica nas principais ruas do bairro.

Apesar de ter sido concretizado, o projeto não se completou. Das 1.000 residências previstas, apenas 560 foram erguidas - cerca de 160 ficaram inacabadas e acabaram sendo invadidas.

Os principais destinatários do projeto já não vivem mais no local. Pelo menos 50% dos contemplados com as casas não moram no núcleo. Há comentários até que muitos deles venderam a casa e voltaram a viver em barracos.

Nem todos os equipamentos sociais programados para funcionar no bairro existem realmente. Não há núcleo de saúde e nem escola de ensino fundamental que atenda a todas as séries.

Outro problema enfrentado pelos moradores é a falta de documentação dos imóveis. Nenhum morador é dono de sua casa, de acordo com o pedreiro Arnaldo de Jesus Souza, que vive no núcleo desde que ele foi entregue, há quase oito anos. “Essa é a nossa grande luta no momento. Queremos ser cidadãos de verdade, pagar os nossos impostos e ter direito aos serviços básicos da Prefeitura e do Estado”, salienta.

Ele diz que, devido a uma briga judicial, a administração municipal ainda não pagou a desapropriação da gleba sobre a qual foi erguido o núcleo e que, até hoje, não há escritura dos imóveis.

Estigma

Um dos maiores desafios do Projeto de Desfavelamento era acabar com o estigma que as pessoas carregavam por ter saído das favelas para o bairro. “Nós precisávamos fazer um trabalho de conscientização muito forte junto a essas pessoas, para que elas entendessem que a mudança não era só de casa, mas também de conceito de vida”, explica Catarina Carvalho, na época, diretora social e educacional do projeto.

Ela diz que, no início, era muito complicado se aproximar dos moradores das favelas. “Quando demos início ao processo, eles eram muito arredios, não confiavam na gente”, salienta.

De acordo com ela, foi preciso pelo menos seis meses de reuniões, que eram realizadas aos sábados, domingos e feriados, com o intuito de ganhar a credibilidade dos atendidos. “Em primeiro lugar, precisávamos colocar na cabeça deles que aquele projeto ia dar certo, que eles iam vencer”, ressalta Catarina.

Mesmo com todo esse trabalho, a coordenadoria do projeto não conseguiu convencer uma boa parcela da população dos seus objetivos.

Muita gente que foi contemplada com uma casa no núcleo acabou vendendo o imóvel ou trocando por um carro, por exemplo, e mudando do bairro. “Tem gente que até voltou a morar em favela”, diz o morador Arnaldo de Jesus Souza.

Para Catarina, isso ocorreu devido a uma falta de acompanhamento do trabalho. “Não bastava apenas mudar as pessoas de casa, era preciso dar todo o apoio necessário para que elas entendessem que conseguir um teto para morar não é um passe de mágica. É uma conquista difícil e que deve ser valorizada”, salienta a ex-diretora social e educacional do projeto.

Apoio assistencial

Das cerca de 400 famílias que foram contempladas com uma casa no núcleo, aproximadamente 50% já não moram mais lá. Muitos são moradores novos que, devido à facilidade de aquisição, acabaram comprando o imóvel por um baixo valor.

Como é o caso do casal Orivaldo e Elaine Aparecida dos Santos. Eles adquiriram uma casa no núcleo, oferecendo um carro como pagamento. “Aqui é um bairro bom, como outro qualquer da cidade”, diz Orivaldo.

A falta de emprego e de equipamentos sociais para atender às necessidades dos moradores ainda são os grandes problemas dos moradores do núcleo. Esses fatores acabam originando o preconceito, que atrapalha o desenvolvimento de uma vida social integrada com a cidade.

“Depois que me mudei para cá, percebi que o bairro não é tão violento como dizem por aí”, salienta Orivaldo. Ele comenta que as pessoas andam na rua à noite, conversam com os vizinhos e têm preocupações comuns a qualquer outra pessoa da cidade.

As entidades sociais que decidiram continuar no bairro depois da entrega das casas são o principal alicerce dos moradores do núcleo. Há instituições que oferecem aulas de reforço escolar, curso para gestantes, profissionalizantes - como o de eletricista e cabeleireira - e de informática.

De acordo com informações da Polícia Militar (PM), o índice de violência no bairro diminuiu consideravelmente de dois anos para cá. O tenente Renato Ramos, comandante da Base Comunitária de Segurança Noroeste da polícia, que engloba o núcleo, diz que isso se deve a um trabalho preventivo e repressivo da PM na área. “A maioria dos moradores do núcleo é trabalhador, são pessoas de bem, mas que sofriam com a infiltração de marginais no local. Estamos tentando acabar com esse tipo de violência, marcando presença no bairro sempre”, explica.

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