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A segurança humana


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As recentes experiências mostram ser perigoso não atender os países em crise. Em todo o mundo os extremistas usam as frustrações populares para justificar suas ações, e não é por acaso que eles buscam refúgio nos escombros de Estados quebrados, onde as conseqüências das crises alimentam as frustrações e a insegurança. Um mundo onde bilhões de pessoas encontram-se desvalidas, inseguras e vulneráveis é um mundo inseguro. O desespero diante do estancamento e do retrocesso é campo fértil para as idéias extremistas e pode ser explorado e utilizado como justificativa para ações que acabam solapando a sociedade e aterrorizando o povo. Devemos nos contrapor a essa manipulação do desespero e nos comprometer ainda mais ativamente com os países em crise a fim de promover a liberdade, a democracia e a Justiça.

Entretanto, existe outra razão para comprometer-se em favor do apoio e da reconstrução dos países débeis e quebrados. As enfermidades estão se espalhando, principalmente como resultado dos reduzidos esforços para controlá-las e da debilidade dos sistemas sanitários em razão da pobreza. Não podemos nos permitir ter grandes áreas esquecidas nas quais simplesmente se deixe a população por sua própria conta para enfrentar as doenças. Uma terrível enfermidade infecciosa, o vírus ébola, por exemplo, foi contida porque foi confinada a pequenas aldeias distantes das grandes cidades. Mas, o que aconteceria se um foco de ébola surgisse em um devastado país da África central carente de serviços locais para o cuidado com a saúde? O que aconteceria se as pessoas infectadas começassem a fugir para as cidades, países vizinhos e, eventualmente, para fora da região? Nada, nem mesmo a guerra ou a fome, tem um efeito tão destrutivo e desestabilizador nas sociedades em vias de desenvolvimento como o HIV/aids. A aids despoja os países de seus cidadãos mais valiosos e produtivos: professores, empregados civis, profissionais da saúde, trabalhadores industriais especializados. O HIV ataca principalmente as pessoas entre 15 e 40 anos, deixando as crianças órfãs e as pessoas mais velhas desamparadas.

Os Estados quebrados funcionam como depósito de reserva para numerosas enfermidades, como a poliomielite e a malária. É necessário um Estado forte para sustentar a saúde pública a fim de prevenir as epidemias e criar condições que reduzam as possibilidades de transmissão das doenças. Apesar dos enormes progressos econômicos e tecnológicos alcançados, grandes setores da população mundial continuam tão vulneráveis frente a males assassinos como o eram vários séculos atrás.

As profundas mudanças registradas no estilo de vida, nas comunicações e nos movimentos de bens e pessoas influem nas formas de difusão das enfermidades. Observe-se, por exemplo, a reiterada aparição de casos de Febre do Nilo Ocidental nos Estados Unidos, primeiro em Nova York e, mais recentemente, no sul do país. Há, também, o recente aumento agudo de casos de tuberculose em países que por décadas haviam considerada ganha a luta contra essa enfermidade. Esta nova onda de casos de tuberculose, freqüentemente em formas resistentes a todos os tratamentos normais, é, em grande parte, o resultado dos movimentos de pessoas de países endêmicos para a Europa e a América do Norte.

A separação entre os problemas de saúde doméstica e internacional está perdendo seu valor na medida em que as pessoas e os bens viajam facilmente através dos continentes. Mais de dois milhões de pessoas atravessam as fronteiras internacionais a cada dia, ou seja, aproximadamente a décima parte da humanidade a cada ano. Ao contrário da maioria dos investimentos em defesa, a vigilância e o controle das enfermidades significam benefícios sociais imediatos, já que melhoram a proteção contra todos os focos epidêmicos. O que está surgindo atualmente é uma nova e mais ampla noção da segurança nacional, a qual podemos chamar, mais propriamente, de “segurança humana”.

A primeira fonte de conflito já não é representada pelas disputas territoriais, mas está cada vez mais relacionada com batalhas sobre o manejo inadequado de recursos, como conseqüência de crises humanitárias, da escassez de alimentos e de água e da difusão da pobreza e das enfermidades. Os níveis de doença em países que representam a maioria da população mundial criam uma ameaça direta para suas próprias economias nacionais e para sua viabilidade política e, portanto, para a economia global e os interesses políticos de todas as nações. (A autora, Gro Harlem Brundtland. é diretora-geral da Organização Mundial da Saúde)

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