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Recuperação prioriza auto-estima

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

A recuperação de férias da rede estadual de ensino, que é dada em janeiro para os alunos que fecharam o ano anterior com deficiência em alguma disciplina, prioriza mais a auto-estima do que o estudo de conteúdos programáticos. A sistemática da recuperação divide educadores e alunos.

Rafael Machado Lopes, 16 anos, que ficou de recuperação de química na 2.ª série do ensino fundamental (antigo colegial), conta que não teve nenhuma aula sobre a disciplina. “No ano seguinte, quando fiz a 2.ª série, tive muitas dúvidas da matéria e precisei estudar em dobro para acompanhar a turma”, diz.

O professor Edmar Oga da Silva, conselheiro da Apeoesp, critica o fato da recuperação de férias priorizar a auto-estima em detrimento dos conteúdos programáticos. “O sindicato é contra porque não leva ao aprendizado e mascara as deficiências da educação”, opina. Ele lembra que o atual sistema de ensino só reprova o aluno ao final do ciclo - na 4.ª série, 8.ª série e 3.º ano do ensino médio.

O dirigente regional de ensino, Jair Sanches Vieira, defende que a auto-estima é importante para o desempenho do aluno no ano seguinte e nega que os conteúdos programáticos não sejam abordados. “O conteúdo da disciplina é passado dentro de uma das três grandes áreas do conhecimento: ciências humanas, ciências da natureza e linguagem de códigos. Dessa forma, o aluno vai recuperar a deficiência”, explica.

Além disso, Vieira afirma que o aluno adquire habilidades e competências importantes para a sua vida na recuperação de férias. “O objetivo é levar o aluno deficiente em alguma disciplina a aprender a aplicar conteúdos de física ou matemática, por exemplo, na sua vida, a ter habilidade e competência para fazer isso”, frisa.

O dirigente de ensino afirma que se o aluno continuar com dificuldade no ano seguinte, ele fez a recuperação paralela, dada em período diferente ao de aulas. “A partir de abril é dada a recuperação paralela em todas as escolas, para que os alunos que continuam com deficiência possam acompanhar a sua turma”, completa.

A professora Suzi da Silva considera importante o aluno ter aula da disciplina que apresentou deficiência, mas aponta vantagens do sistema atual, que trabalha conteúdos mais amplos e a auto-estima. “Uma turma para qual estou dando aula está fazendo um jardim. Nessa atividade, mesmo sem perceber, os alunos aprendem conteúdos de biologia ao analisar o solo e de matemática ao calcular a área e o número de tijolos que serão usados”, explica.

Para ela, esse método de ensino é, muitas vezes, até mais eficiente que o convencional. “O aluno aprende sem perceber. Mas isso só é possível porque a turma é pequena, de pouco mais de dez alunos. Com uma sala lotada, seria impossível”, frisa.

As atividades esportivas, lúdicas e artísticas também são empregadas na recuperação.

Para o conselheiro da Apeoesp, a recuperação de férias precisaria sim abordar conteúdos programáticos, uma vez que o aluno só pode ser reprovado ao final dos ciclos. “Se ele não aprender a disciplina, vai carregar a deficiência por vários anos. O resultado é que temos alunos na 8.ª série e até colegial sem saber escrever direito”, frisa.

Silva concorda que é importante oferecer atividades para melhorar a auto-estima do aluno que teve dificuldade em qualquer disciplina, desde que o estudo não seja prejudicado. “A auto-estima é importante, mas deveria ser trabalhada durante todo o ano. Na recuperação de férias, os conteúdos não poderiam ser deixados de lado”, diz.

Aulas em janeiro

Dos cerca de 85 mil alunos da Diretoria de Ensino de Bauru, 5.705, ou seja, 6,71%, estão inscritos na recuperação de férias. A porcentagem de estudantes que apresentaram deficiência em alguma disciplina no decorrer do ano passado estava dentro do esperado, de acordo com Jair Sanches Viera, dirigente de ensino.

As aulas, que começaram no último dia 6, vão até o dia 30 e são dadas nas próprias escolas dos alunos. O dirigente de ensino não soube informar a porcentagem de presença na recuperação de férias, mas afirma que a maioria está freqüentando as aulas.

Ele conta que, em algumas escolas, até alunos que não ficaram de recuperação estão participando das atividades. “Também é uma maneira de tirar os alunos das ruas nesse período de férias”, diz.

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