Já, em diversas oportunidades, temos oferecido à consideração dos que nos honram com a sua leitura a nossa convicção acerca de que o chamado limite de homeostase aplica-se, também, aos formatos civilizacionais; e que o nosso, a civilização a que pertencemos já ultrapassou o referido limite e está em processo de irreversível degradação.
Efetivamente, a cada dia que passa, mais aumentam os indícios da decadência que estamos apontando. Veja-se, por exemplo, o que, no cenário internacional, vem ocupando o noticiário transmitido pelas agências de notícias. De um lado, a mais do que clara disposição do governo, ao menos o aparente, dos EUA, em atacar o Iraque. O que é alegado como motivo para a referida disposição? O fato de ser Saddam Hussein um ditador e possuir o Iraque, supostamente, armas de destruição em massa, o que estaria pondo em perigo os EUA e o mundo!!!
Ocorre, porém, que a Coréia do Norte declara, oficialmente, ter retomado o seu programa nuclear e assume posição belicosa, à diferença do Iraque, que permitiu, em condições incrivelmente humilhantes, a realização do trabalho de inspetores internacionais que, há semanas o têm vasculhado sem que, até agora, ao que se saiba, nada haja sido encontrado em respaldo às suspeitas levantadas contra ele, como pretexto para atacá-lo. Ataque que, para nós, já está decidido, qualquer que venha a ser a atitude de Saddam Hussein, e sejam, ou não, as terríveis armas que ele possuiria. No que toca à Coréia, porém, é o aparente governo americano que tem cedido e afirma não haver motivo para ações bélicas, mas para a adoção dos caminhos pacíficos da diplomacia.
A adoção, tão flagrantemente cínica, de dois pesos e duas medidas é sintomática, supomos, da decadência irreversível em que vai resvalando o mundo dos nossos dias. De fato, trata-se de desrespeito à opinião pública internacional, frontalmente bigodeada pelos que, baseados no poderio econômico-militar que possuem, julgam-se no direito de não levá-la em conta, senão para atirar-lhe grossas mentiras, à guisa de explicações que, no fundo, não se sentem na obrigação de dar.
Ocorre, porém, que a opinião pública percebe, claramente, a razão de ser dos dois pesos e duas medidas adotados: é que a Coréia do Norte não tem petróleo e não representa ameaça alguma para o Estado de Israel, ao qual o governo aparente dos EUA se mostra incondicionalmente submisso.
Fosse o caráter ditatorial do regime de Saddam Hussein motivo e não mero pretexto, como explicar as ótimas relações entre o governo aparente dos EUA e a China continental? E entre o referido governo e o regime saudita? E isto para citar apenas dois exemplos, dentre vários que poderiam sê-lo.
Como se vê, a ordem internacional, ou a desordem, melhor dizendo, vive na verdade sob a égide pura e simples da força, e não do direito ou da justiça. E semelhante situação, perturbadora do direito natural, sendo, como é, anômala, não pode eternizar-se e, ao contrário, é sintomática do declínio e da decadência a que fizemos, mais uma vez menção, pedindo, para a hipótese, a reflexão dos nossos leitores. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC - Home-page: www.jorgeboaventura.jor.br - E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)