Pesca & Lazer

Coisas de pescaria...


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O fato que vou narrar é puramente verídico. Entre tantas pescarias que já fizemos, a mais marcante e quase trágica foi a de setembro de 2002. Bem, vamos do começo. A animada equipe era composta pelo João Tufão (coordenador geral), Diógenes Gomes, Rubão, Arlindo e o Raulzinho, que há uns 30 anos só sai da sua relojoaria Cibele para nossas pescarias, e eu, José Luiz (Jacaré) Garcia.

Antes de mais nada, tratamos de reservar o ônibus do famoso Buzanca, que além de excelente motorista é cozinheiro, piloteiro, pescador e, nas horas de folga, grande cachaceiro. Quando fazíamos as compras, apareceu o João Tufão com umas 2.100 latinhas de Skol para nossa grande estranheza, já que cada um de nós está acostumado com uma ou duas latinhas por dia, mas já que ele era o chefe, ninguém contrariou.

Arrumamos as tralhas e partimos para o rio Paraguai, um rio ótimo, muito piscoso, porém perigoso pelo volume d’água e pela fauna muito variada. Depois de uma partida de truco e outra, o Buzanca nos deixou na beira do rio, todos sóbrios pois o Tufão disse que a cerveja era pouca e na viagem só íamos tomar café e conversar com o motorista, o que nós aceitamos sem nenhum protesto.

Depois de uma noite restauradora no excelente rancho do Dió, levantamos pelas cinco da manhã. Enquanto o Buzanca fazia o café, o João Tufão colocou uma cadeira ao lado do freezer e começou a degustar e dar ordens para a arrumação das tralhas, dos botes, da casa, etc. Pelas 9h, conseguimos sair em dois barcos. Num foi o João Tufão e sua geladeira de 330 latinhas e os demais apertados no outro. Nesse dia ventava e não pegamos grande coisa. Só uns sete pintados, 14 jaús e 21 pacus, fora os sem medida que devolvemos ao rio.

No segundo dia, alugamos uma chalana para o João levar as latinhas dele e saímos nos dois barcos até o forte Coimbra. Lá estava um pouco melhor. Já havíamos pegado uns 1.660 quilos de peixe quando, de repente, bateu o vento sul, armando um tremendo temporal, com onda de quase três metros de altura. Por sorte, conseguimos encostar num barranco com uma casinha de madeira, onde conhecemos o Pedro Bocarra e sua esposa dona Maria, os quais nos acolheram na maior simpatia.

Fritamos uns peixes, inclusive um armal de oito quilos que o Dió, exímio cozinheiro, nos preparou deliciosamente. O Bocarra arrancou uns pés de mandioca dos 365 que ele planta todo ano e aí não resistimos (embora fizéssemos força) e entramos nas Skol do João Tufão. O vento acalmou e a noite caiu bonita, com um imenso luar que só quem acampou nas barrancas do Paraguai já viu.

Nesse momento, dona Maria queixou-se que estava com o despertador quebrado e ia recolher-se cedo com medo de não acordar para fazer-nos o café. Todos olhamos para o Raulzinho e gritamos que ali estava o maior relojoeiro de Bauru.

O Raul pediu o relógio e começou a bulir nele com as chavetinhas que nem na pescaria ele larga. Depois de umas duas horas, o Raulzinho disse que estava com dor de barriga, passou a mão nas muletas, no despertador e nas chavetas e entrou pelo mato afora. Continuamos alegremente a contar os “causos” e tomar as Skol até que pelas três da manhã demos pela falta do Raulzinho e saímos a procurá-lo. Depois de um bom tempo, encontramos, debaixo de uma figueira, uma das muletas do Raulzinho. Mais nada.

O dia raiou e nem sombra do nosso companheiro e do despertador da dona Maria. Nosso coordenador (já recuperado) acionou pelo seu rádio amador a Florestal, a Marinha e a Aeronáutica. Foi um alerta geral, todo mundo procurando e nada. Após cinco dias de busca, apareceu o Hugo, genro do Raulzinho, e ordenou que parássemos com a busca.

Muito tristes e abatidos, começamos a viagem de volta, quando, após uns 20 quilômetros ouvimos o tilintar de um despertador. Encostamos a chalana e adentramos a mata quando, com um grito de terror, avistamos uma enorme sucuri, de uns 18 metros de comprimento, com a outra muleta do Raulzinho travando sua boca aberta e ele olhando pela cavidade.

Não é que o danadinho, de dentro da barriga da sucuri, conseguiu consertar o relógio e ficou fazendo o mesmo despertar para chamar sua salvação?

Quem não quiser acreditar é só aparecer na casa do Pedro Bocarra que vai ver o couro da bichona estendido e o despertador da dona Maria funcionando legalzinho. (José Luiz Garcia, o Jacaré, é pescador, degustador e torcedor do Nacional)

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