A Sociedade Beneficente Cristã (SBC), uma das entidades mais antigas e conhecidas de Bauru, está desfazendo-se de seus imóveis para continuar atendendo crianças, idosos e doentes. Sebastião Paiva, que fundou a entidade em 1946 e a preside até agora, conta que no ano passado vendeu vários terrenos para cobrir dívidas.
A medida foi necessária porque o grupo SBC, formado por uma casa-abrigo para crianças de até 14 anos, e um asilo para idosos de ambos os sexos e doentes, localizados na Bela Vista, fechou 2002 com um déficit de R$ 484 mil, de acordo com a diretoria da entidade.
“Vendi uma gleba de uma quadra no Jardim Ferraz por R$ 250 mil, dois lotes na Vila Aviação por R$ 48 mil, um terreno na Cidade Jardim por R$ 13 mil e um sítio de dez alqueires por R$ 95 milâ€, conta Paiva que, aos 93 anos, lúcido, administra a entidade. “Tudo subiu e nosso custo aumentou muitoâ€, completa.
Ele lamenta não poder mais atender todas as pessoas que o procuram e lembra que a SBC agora, além dos prédios que abrigam os três ramos da entidade, não tem muitos imóveis. “Estamos numa época difícil. Já funcionamos até como pronto-socorro da cidade. Os pobres batiam na nossa porta e pediam para pagar conta de água, luz, gás e nós pagávamos. Hoje, já não podemos mais atender a todosâ€, diz.
A última medida visando corte de despesas adotada pela SBC foi a desativação do asilo da Fazenda Val de Palmas, no mês passado. Os cerca 90 idosos do sexo masculino asilados no local foram transferidos para o prédio da Bela Vista para redução de custos com funcionários e transporte.
Apesar de ter vendido imóveis para cobrir dívidas, a entidade tem sido obrigada a reduzir o número de crianças atendidas nos últimos anos, conta Ana Aparecida Camillo, 80 anos, a dona Anita. “Hoje, a Casa da Criança tem 120 crianças, mas a média era 200. Agora, por causa da crise, só recebemos novas crianças se elas não tiverem para onde ir mesmoâ€, diz.
Trabalhando na SBC desde sua fundação e hoje presidente da Casa da Criança, Anita diz que cada vez mais é preciso recorrer a promoções como jantares, rifas e pasteladas. “Além das 120 crianças, temos 128 homens e 100 mulheres asiladas. É um custo altoâ€, frisa.
De acordo com a diretoria, a despesa mensal da SBC gira em torno de R$ 315 mil. “Juntas, as verbas municipais, estaduais e federais não ultrapassam 30% desse valorâ€, diz Anita. A entidade tem cerca de 300 funcionários, o que encarece a manutenção, segundo Lourdes Terezinha Carvalho, assistente administrativa da instituição.
“Temos pouquíssimos voluntários. E como trabalhamos com acamados, idosos e crianças, precisamos de um quadro grande de funcionáriosâ€, explica. Os idosos e doentes têm acompanhamento médico e inclusive terapia ocupacional.
Sérgio Carlos dos Santos, 50 anos, por exemplo, que mora no asilo, está aprendendo a fazer tapetes na terapia. “Moro aqui há uns seis anos, desde que meus pais morreram e minha casa caiuâ€, conta. Ele faz parte do grupo removido da Fazenda Val de Palmas para o prédio na Bela Vista.
Para Lourdes, a mudança não prejudicou o atendimento. “Não temos a fazenda, mas eles fazem caminhada pelas ruas do bairro acompanhados de monitores. Aqueles que eram ativos lá, continuam sendo aquiâ€, conta.
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Casas de aluguel
Além dos prédios ocupados pelas entidades, os bens da SBC agora resumem-se à Fazenda Val de Palmas, com 104 alqueires, alguns lotes em bairros periféricos, de baixo valor, segundo Sebastião Paiva, e duas colônias de casas - uma no Jardim Ferraz e uma no Parque Jaraguá - no total de 80 residências.
“Não podemos vender a fazenda porque lá são produzidas hortaliças e leite para o consumo interno. As casas das duas colônias são de madeira e também não podemos vendê-las porque estão alugadas por baixo valor a pessoas pobres. Muitas nem nos pagamâ€, afirma Paiva.
A casa da colônia do Jardim Ferraz de três cômodos é alugada, em média, por R$ 100,00. Marisa dos Anjos Soares, uma das moradoras, afirma que o aluguel é mais barato que o praticado no mercado. “Eu morava numa casa de dois cômodos e pagava R$ 90,00. Então aqui está melhorâ€, diz ela que mora com a família em uma das casas de madeira do local.
O patrimônio da Sociedade Beneficente Cristã, que já foi bem maior, foi erguido com doações. “Fundei a entidade em 1946 para crianças pobres e na década de 50 já tínhamos duas casas alugadas que abrigavam tuberculosos de várias cidades da regiãoâ€, conta.
“Naquela época, era mais fácil. Todos tinham emprego e ajudavam mais as entidades. Compramos esses terrenos que agora precisamos vender com a ajuda da populaçãoâ€, lembra Paiva.