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'Fábrica' de desculpas

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Para todo apaixonado, há sempre uma forma de superar obstáculos a fim de encontrar a pessoa ou o objeto tão desejado. É um autêntico vale-tudo. E é justamente nessa hora que as “desculpas” e os disfarces oratórios momentâneos entram ainda mais em ação.

Exemplo típico disso ocorre, segundo Lu Tosi, quando um carro antigo é comprado “escondido” das mulheres. “Eles apelam para preâmbulos. Falam que têm vontade de adquirir modelo de uma determinada marca e, de repente, o veículo aparece em casa. Na verdade, ele já estava adquirido há muito tempo”, garante ela. “Eles fingem dizer a verdade, e nós fingimos acreditar”, acrescenta.

Outra que “aguenta” as peripécias do marido Ângelo, admirador de objetos e utensílios de décadas passadas, é Magda Martins Pereto. Ela revela que, para seu esposo, tudo que é antigo é melhor e mais bonito, principal razão utilizada por ele para justificar as aquisições. “Além disso, é sempre um incrível achado e parecem que surgem do nada”, completa Magda.

Ela conta, ainda, que a paixão de Ângelo pelas antiguidades é tamanha que nem o Hotel Central, demolido em dezembro de 2001 e famoso por concentrar viajantes no passado, escapou dela. “Quando as obras para derrubar o prédio se iniciaram, ele fez questão de ir até o local para pegar um tijolo e guardá-lo como recordação”, revela.

Magda diz que Ângelo é freqüentador de carteirinha da “Feira do Rolo” em Bauru, conhecida por comercializar de “tudo”, até mesmo utensílios antigos. “Quando acordo de manhã e vejo que ele não está mais na cama, já sei onde procurá-lo. O mais engraçado é vê-lo chegar e dizer para nossos filhos darem uma olhada no que o papai comprou”, diverte-se.

Quem também tem no sangue o gosto pelos carros e cacarecos antigos é César Cozza. Tanto que sua esposa Jussara não perdeu tempo e resolveu colocar na “roda” uma passagem envolvendo seu marido. “Certa vez, morreu uma senhora que diziam ter um monte de quinquilharias na casa dela. Quando soube, o César disse, brincando, que no outro dia já estaria na porta da residência”, diz ela.

Mesmo quando a situação aperta, eles encontram uma saída estratégica para contorná-la. É o caso de Modesto Masson, que quando vendeu um veículo antigo teve o cuidado de escolher o comprador: um sobrinho. “Assim, mesmo tendo ficado sem o carro, ele está por perto e, no final das contas, acaba cuidando dele da mesma maneira”, garante a esposa Bruna.

Na mesma linha agiu Ulisses Pontechelle ao comprar um pára-choque sem “necessidade”, conforme sua esposa Cristina. “Ele argumentou que, se um dia precisasse, já teria um, pois seria uma peça difícil de achar futuramente”, diz ela.

Encontros

Quando o assunto são os encontros de carros antigos, as histórias são um show à parte, conforme as mulheres. Segundo Lu Tosi, participar deles é uma aventura imprevisível. “Horário é um quesito impossível de cumprir, pois nunca sabemos se chegaremos ou voltaremos no mesmo dia”, afirma ela.

Além disso, continua Lu, é preciso precaver-se levando, além de um verdadeiro kit de alimentação, itens como gasolina e óleo. Isso porque, normalmente, os veículos não aguentam longas viagens sem apresentar um problema. “Quando um pára, os outros solidariamente acompanham, sem a menor pressa de chegar”, diz.

Mariângela lembra, ainda, que não é raro seu pai e os amigos dirigirem-se a encontros para, segundo ela, verem sempre os mesmos carros e donos. “Só os cabelos mudam, que ficam mais brancos”, conclui ela.

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