Política

Prefeitura e Tofer se acusam por ponte

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

A Prefeitura de Bauru e a Tofer - Engenharia, Comércio e Indústria Ltda, empresa que construiu a ponte Ayrton Senna, no Mary Dota, acusam-se mutuamente quanto à responsabilidade das rachaduras que surgiram na fundação da estrutura.

A administração municipal alega que a Tofer não respeitou o projeto original e a empresa, por sua vez, diz que alertou a Secretaria de Obras que a proposta apresentada a ela não era a mais adequada para o local. A ponte, sobre o rio Bauru, que liga a região do Núcleo Mary Dota ao Distrito Industrial 1, está interditada desde o ultimo dia 7, prejudicando pelo menos 30 mil pessoas.

O JC teve acesso a documentos que explicitam o jogo de empurra quanto à responsabilidade do problema surgido na ponte. No dia 8 de janeiro, dia seguinte ao da interdição da ponte, a Procuradoria Jurídica da Prefeitura de Bauru notificou a Tofer a iniciar as obras de recuperação em cinco dias.

Análise feita pela Secretaria de Obras concluiu que a empresa construiu as estacas de fundação em posição, uma em relação a outra, diferente do projeto. “Tudo indica que o problema tenha sido causado pela diferença na estaca. Se fosse coisa de milímetros, tudo bem. Mas é de quase um metro”, diz José Roberto Anselmo, secretário de Negócios Jurídicos interino.

Ele lembra que a prefeitura, assim que constatou o surgimento das rachaduras na ponte, em dezembro, levou o caso à Justiça pedindo uma perícia para apurar a causa do problema. “O juiz já nomeou um perito para fazer a análise da ponte”, diz.

Se a Justiça concluir que a responsabilidade pelas rachaduras é da construtora, a prefeitura vai acioná-la para que pague a recuperação da ponte. “Vamos contratar uma empresa para fazer a recuperação e depois acionar judicialmente a Tofer. Por lei, a responsabilidade pela obra é de cinco anos.”, diz.

Antônio Carlos Duarte, secretário de Obras, prefere aguardar o resultado da perícia judicial para apontar a causa das rachaduras. “Existem três envolvidos na obra: o projetista, que já é falecido, a prefeitura e a construtora. Se foi erro de projeto, ele é falecido e a responsabilidade civil não se transmite a outro. Nesse caso, caberá à prefeitura fazer a recuperação. Se for da construtora, ela terá que ressarcir a prefeitura”, explica.

A construtora contra-notificou a prefeitura, alegando não ser responsável pelas rachaduras surgidas na fundação. No documento, a Tofer diz que seguiu integralmente o projeto estrutural fornecido pela prefeitura, apesar de ter alertado, antes do início das obras, que o tipo de fundação proposta - de estacas pré-moldadas de concreto - não era o mais indicado para o local.

A construtora afirma que na ocasião chegou a apresentar e a ofertar, sem qualquer ônus para prefeitura, um projeto alternativo, que propunha fundações profundas através de tubulões de ar comprimido. Para a Tofer, esse tipo de fundação é mais condizente a uma obra às margens de ribeirão, com alteração sazonal da altura da lâmina d’água.

A ponte Ayrton Senna, que foi entregue em setembro de 2000, na véspera da eleição que reelegeu Nilson Costa (PPS) prefeito de Bauru, custou mais de R$ 250 mil. A recuperação da estrutura está estimada em cerca de R$ 200 mil.

Anselmo diz que a empresa, ao questionar o projeto, está fazendo sua defesa. “O projeto estrutural foi feito pelo doutor Murilo Villaça Maringoni, uma das maiores autoridades em engenharia que existiu na região e no Estado”, frisa. “O tubulão não difere muito da estaca de concreto. O que nós apontamos é que o problema na ponte surgiu em função do projeto não ter sido respeitado”, completa.

Anselmo confirma que a Tofer, antes de iniciar as obras, ofertou à prefeitura um projeto alternativo, que previa tubulões no lugar de estacas de concreto. “Mas temos dois problemas aí. O primeiro é que tubulão sai mais caro que a estaca. O segundo é de ordem jurídica. A Tofer ganhou a licitação para construir a ponte com base no projeto que previa a estaca. Se fosse mudar para tubulão, teríamos que abrir outra licitação”, frisa.

Ex-secretário vê pressa

O engenheiro Celso Donizeti e ex-secretário das Administrações Regionais (Sear) protocolou documento no Ministério Público no qual questiona se a quantidade de terra usada nos aterros das cabeceiras foi prevista no cálculo estrutural e se o tempo para cura e endurecimento do concreto foi respeitado.

O secretário municipal de Obras, Antônio Carlos Duarte, garante que o tempo de cura e endurecimento do concreto foi respeitado. “Não houve pressa na entrega da ponte, como alegam alguns. Tudo foi feito de acordo com as normas estabelecidas”, frisa.

O vereador Antonio Garmes (PSDB) também protocolou uma representação no Ministério Público pedindo a investigação da causa do problema na ponte. A ação está sendo analisada pelo promotor Fernando Masseli Helene.

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