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Barbosa: na CBB de olho no Mundial

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 14 min

Sua permanência foi oficializada na semana que passou pela Confederação Brasileira de Basquetebol (CBB). Somando seus dois momentos no comando das cestinhas do Brasil, o bauruense Antônio Carlos Barbosa, 51 anos, caminha para 17 anos como técnico da seleção feminina de basquete.

De 1976 a 1984, ele contou com os pontos de Paula e Hortênsia, mas de 96 até agora, o técnico vive entre o prazer de ver suas jovens jogadoras na elite do basquete internacional e o dilema de ter que montar um selecionado heterogêneo.

Títulos e troféus não lhe faltam, mas a situação do esporte no Brasil o preocupa. Aliás, Barbosa se orgulha de mesmo em meio a crise manter o Brasil entre as quatro maiores equipes do mundo e acredita que o novo governo traga incentivo para que os empresários voltem a investir nas equipes e torná-las competitivas.

O técnico, que nunca foi um jogador brilhante e nunca conquistou um título estadual, conseguiu chegar à seleção aos 31 anos, como auxiliar técnico, e gostaria muito de se manter no grupo pelo menos até 2006, quando o Brasil será sede do Mundial feminino.

Na última semana, Barbosa recebeu o JC para uma longa conversa cujos principais trechos estão a seguir:

Jornal da Cidade – Depois de sua permanência ter sido oficializada pela CBB, o que vem pela frente?

Antônio Carlos Barbosa – Nós temos pela frente quatro competições a partir de junho. O Sul-Americano de Seleções, o pré-olímpico que é o mais importante, que será em setembro, temos os jogos Panamericanos, na República Dominicana, em agosto e ainda em julho o Campeonato Mundial sub-21, que vai ser disputado na Croácia.

JC – E o que é necessário para jogar na seleção do Barbosa?

Barbosa – O principal é o alto nível técnico é um pressuposto que você não pode fugir. Você não pode chamar uma jogadora inferior tecnicamente porque ela é boazinha no lugar de uma outra com técnica superior e algumas imperfeições de conduta. A técnica é a base e vai gerar a avaliação das atitudes, mas hoje todas sabem que existe uma valorização do comportamento, de postura como jogadora.

JC – Nas suas últimas escalações, temos times que marcam muito e são muito rápidos. Essa característica é a primordial?

Barbosa – Eu tenho orgulho em dizer que o basquete feminino sempre adotou uma maneira de jogar em extrema velocidade, contra-ataque e dentro do todo e de critérios táticos deixar aflorar a individualidade de cada jogadora. O feminino tem essa virtude e se não fui eu, fui um dos que implantou essa característica no basquete brasileiro. Afinal, nós nunca tivemos a altura do europeu, nem a força do americano, mas temos talento, velocidade e arremesso de três pontos. Assim, veloz e marcando muito conseguimos contrabalançar as desvantagens em relação aos outros. Com a parada da Hortênsia e da Paula perdemos muito o nosso potencial de cesta, pois elas eram responsáveis por quase 50% dos pontos do Brasil. Como nossa média caiu de 90 para 70, 65 temos que jogar não deixando o adversário fazer 60, dessa forma reforçamos a defesa e conseguimos colher os resultados.

JC – Falando em resultados, o senhor revelou Paula e Hortênsia e hoje o Brasil tem oito atletas no basquete americano, qual o limiar do orgulho e da complicação na hora de montar a seleção?

Barbosa – Fico muito emocionado e recompensado por este histórico, mas na realidade o fato de ter tantas jogadoras nos EUA, na hora de montar o grupo é bem complicado. Nós tivemos, a Claudinha, a Erika e a Kelly que praticamente não jogaram, ficaram lá três meses treinando e com uma média de participação muito baixa. Não tem como você evoluir sem jogar. Tivemos um outro grupo intermediário formado pela Isiane, a Cinthia e a Ellen que tiveram um tempo de jogo maior, como a Janete e a Adrianinha. Se todas tivessem tido uma participação de 20, 25 minutos por jogo, tecnicamente seria bom. Elas chegariam treinadas individualmente e caberia a nós, técnicos ajustar o grupo. Mas elas chegam em três faixas de condição física e treinamento e o tempo é pequeno para uniformizar este grupo. A CBB está avaliando esta situação e encaminhando projetos de patrocínio para repatriar estas atletas para que nestes tempos importantes consigamos mantê-las no Brasil.

JC – Já que citou o patrocínio, com tantas jogadoras na WNBA e com uma seleção em alta, o basquete feminino enfrenta o mesmo drama do masculino para sustentar equipes?

Barbosa – Pior, muito pior. Eu sempre falo que a situação do basquete é extremamente conflitante. O basquete feminino nestes dez anos tem mantido o prestígio do basquete brasileiro. Quem tem conseguido os títulos são as meninas. O masculino conseguiu o título no Panamericano, em Winnipeg e só. Porém, ele é forte internamente, nos temos um Campeonato Brasileiro com 17 equipes e todas patrocinadas. Mal ou bem todas têm patrocínio. No feminino não temos mais grandes patrocinadores e isso gerou uma evasão de jogadoras. Elas estão indo para a Europa e os Estados Unidos porque os salários aqui não estão condizentes com aquilo que elas recebem fora. Com um dólar a R$ 3,50 um salário médio lá, se torna altíssimo aqui. Então, eu acho que vamos chegar a uma volta à realidade, porque não dá para você pagar extremamente caro um atleta e depender só do retorno de mídia dele. Se a TV aberta não entrar para valer ou não tivermos leis de incentivos fiscais, vai ficar difícil termos grandes patrocinadores. Hoje o esporte é uma opção de investimento de marketing, mas não existe uma vantagem fiscal para quem investe, por isso o novo governo tem que tomar partido nesta questão.

JC – O que o senhor espera do Agnelo Queiroz, o novo ministro dos Esportes?

Barbosa – Eu não o conheço pessoalmente. Mas ele foi um dos autores da lei Piva, que é o que vem sustentando as confederações hoje. A lei Piva é um percentual que sai da Loteria Esportiva e vai para o Comitê Olímpico, que repassa para as confederações. O basquete se manteve esse ano com essa lei. Então, já achei o Agnelo uma pessoa do ramo e de cabeça boa. Uma das últimas notícias que li é que ele se propôs a conversar com o Palocci, da Fazenda e tentar viabilizar uma lei fiscal. No governo do Fernando Henrique, quando retornamos da Olimpíada, ele ficou de colocar uma vírgula na lei Rouanet para a cultura e esporte, mas o todo-poderoso da Receita, cortou. Agora parece-me que vão voltar atrás, aí as empresas terão uma moeda para investir no esporte.

JC – Mas com uma confederação dependendo de subvenção federal como se realiza um mundial aqui?

Barbosa – Neste caso é outra estrutura, para isso vai existir todo um comprometimento de governo federal e estadual. Teremos o Mundial de Basquete Feminino em 2006 e os Jogos Panamericanos de 2007, que serão no Rio de Janeiro. Aí aparecem patrocinadores. Mas como você questionou, a própria CBB que é o órgão maior está sem patrocínio. Ela se vira como pode. O vôlei por exemplo tem um patrocínio milionário de estatais. Ele fez por merecer, mas o basquete teve grandes conquistas nesse meio tempo um título mundial, um vice olímpico e não teve um grande patrocínio. Acho que faltou um pouco de marketing, mas não podemos acusar a confederação de todos os males. Pois no basquete aconteceu um outro problema ele ficou muito tempo enraizado não em clubes, mas em nomes: Paula e Hortênsia que onde iam levavam um patrocínio. No momento em que elas pararam, minguaram os patrocínios, pois elas eram o alvo e não a modalidade. Nós enfrentamos uma transição que eu não sei quanto tempo vai durar.

JC – O senhor viveu momentos distintos com as estrelas e hoje convive com meninas que não têm todo esse marketing. Em contrapartida, trabalha com elas desde a base. É diferente o trabalho?

Barbosa – O problema é o seguinte: quando comecei na Seleção não tinha Paula, nem Hortênsia e que as levei para a Seleção em 1976. Hortênsia tinha 17 anos e a Paula 14. Passamos um momento extremamente difícil até 84, na minha saída. A partir deste período começamos a ter patrocinadores como Minercal e Unimep monopolizando as duas, depois a Paula foi para Jundiaí com a Cica, a Hortênsia ficou em Sorocaba com a Unimed. Eu parei de ser técnico e fiquei quatro anos sendo secretário de Esportes em Bauru no governo do Izzo. Quando voltei ao basquete em 93, tínhamos a Lacta patrocinando Santo André, continuava a Unimep em Piracicaba, tinha a Caixa patrocinando a Ponte Preta e a Unimed Brasil em Araçatuba com um patrocínio de R$ 100 mil por mês. Foi uma beleza de 93 a 98, mas estava preso a nomes. Hoje nós temos que nos habituar a outros: Janete, Helen, Isiane, só que existe um outro problema: elas não estão aqui, jogam fora, porque aqui ninguém consegue pagar o que elas ganham lá. Estamos num beco sem saída. Nós não temos grandes patrocinadores por não termos uma grande atleta e vice-versa.

JC – Nas quadras não se vê nenhuma nova Paula ou Hortênsia?

Barbosa – Essa menina, a Isiane é uma jogadora diferenciada, fora de série, só que no último ano de juvenil já foi jogar na Espanha e na WNBA, não joga no Brasil mais. Quem é que hoje joga no Brasil? A Micaela, que joga em Campo Grande, a Érica e a Janete que jogam em Guarulhos e a Silvinha e a Helen que jogam em Americana. De 12 da seleção, temos cinco jogando no Brasil e mais de 20 jogadoras médias na Europa. E pode acontecer o mesmo no masculino. Hoje já temos o Marcelinho, o Guilherme, o Anderson, o Thiago Spliter na Europa e o Nenê na NBA. Daqui a pouco é o Leandrinho, o Valtinho, é só abrir a porteira, passa boi, passa boiada. A nossa sorte é que o mercado ainda não se abriu.

JC – Como pessoa, como o senhor se sente trazendo a seleção, desde 96, entre as quatro melhores do mundo? Um moço simples, de Bauru...

Barbosa – É uma pergunta interessante. Eu sou obrigado a dizer que eu me orgulho do que consegui. Primeiro, todo técnico hoje de razoável para médio, de médio, para bom e de bom para ótimo foram jogadores e jogadores de algum destaque. Alguns bons e outros ótimos como o Guerrinha, o Marcel e o Hélio e alguns médios como o Nilo, o Zé Boquinha e outros que me fogem agora. Mas eu fui um jogador, que jogava em Bauru porque todos os meus amigos jogavam. Era o grupo que saía, ía para as brincadeiras dançantes, para o BTC e um dia todo mundo cismou em jogar basquete. O Raduan Trabulsi montou um time e levou a turma para jogar com ele. Eu também fui jogar. Logicamente, você vai jogando e chega num ponto em que conclui que não vai sair daquilo. Eu não tinha altura, não tinha habilidade, mas estava na onda para não ficar fora da turma. Chegou 62 e todo técnico começa assim, ele vai jogar num grande time e para poder se pagar treina um time infanto, infantil, e na época o Raduan queria montar outro time, ele treinava o adulto e o juvenil, e pediu para eu ser o técnico, ele sabia que gostava, mas não tinha talento como jogador e assim comecei a treinar um time infantil masculino. E fui gostando... No ano seguinte, eu estudava no Ernesto Monte e a professora chegou para mim e disse que o técnico ia embora e perguntou se não queria treinar as meninas, afinal ela me via no colégio o dia inteiro. Eu era rato de aula de educação física, ficava paquerando as meninas. E acabei me tornando técnico. Então, eu comecei assim. Depois a Luso formou uma equipe feminina e fui ser o técnico e disputava os campeonatos entre as escolas que existiam em Bauru. Na época, a Jaci Guedes de Azevedo, que chegou à seleção, era a melhor jogadora da cidade, com ela e outras meninas do Ernesto Monte, montamos o time da Luso e começamos a disputar os campeonatos da federação. Isso foi em 66. Aí começou a aparecer o meu trabalho e me chamaram para ser auxiliar técnico da seleção paulista juvenil. Comecei do começo mesmo! No ano seguinte, passei a técnico e fiquei cinco, seis anos como técnico da seleção paulista e treinando em Bauru o time do Luso. Depois passei a técnico da seleção paulista adulto, só que em 71 o técnico da seleção brasileira adulta que foi campeã panamericana, o Valdir Pagan, me convidou para ser assistente dele. Foi uma realização. Um cara de Bauru, com 26 anos estar na seleção brasileira... Fomos campeões panamericanos, eu e a Jaci, desfilamos em carro de bombeiros. Não tinha calçadão e eu passei pela rua Batista com aquele comércio, o povo aplaudindo, tinha a banda do 4º Batatlhão. Passei a dar aula no Sesi e a formar jogadoras, pois eu só fazia basquete o dia todo. Os caras viram o meu trabalho e em 76 me chamaram para assumir a seleção brasileira adulta como técnico e iniciar um trabalho de renovação. Fiquei até 84 e nesse período ganhamos muito campeonatos em Bauru, mas nunca ganhamos um título estadual adulto, pois não tínhamos o time mais caro, a equipe era patrocinada pelo BTC e um grupo de abnegados, ganhávamos os Abertos, que eram extremamente importantes na época. Em 84 saí da seleção, voltei em 96 e nesse período fui ser técnico em Campinas, Piracicaba e acho que a grande virtude disso tudo é que todo o grande técnico é notado quando consegue um título, só que às vezes ele consegue isto de maneira fortuita, estava no lugar certo na hora certa e o time foi campeão, mas ele não teve um histórico, não passou pelas etapas... Eu passei por todas essas etapas e cheguei a técnico da seleção brasileira sem nunca meu time ter sido campeão estadual. Olha a incoerência! Naquele tempo não tinha o campeonato brasileiro. Eu fui técnico sem ganhar um grande campeonato e morando em Bauru, sem mídia e sem ninguém para me proteger. Não tinha TV em Bauru, não tinha Federação, nada. Foi assim que cheguei onde estou.

JC - O senhor sempre treinou mulheres? Como é lidar com atletas que se casam, menstruam, sofrem de TPM? O senhor nunca se apaixonou por uma delas ou vice-versa?

Barbosa – De 83 a 85 treinei em Bauru uma equipe masculina do Luso, patrocinada pela Tilibra. Mas a minha relação com as mulheres é interessante. Ontem mesmo estava vendo uma entrevista da Paula para a ESPN e ela contou que eu era muito bravo e chutava a porta. A Paula voltava chorando de todo campeonato. Mas antes elas eram muito amadoras e não tinham consciência da responsabilidade, tinha que apertar para me obedecerem e se dedicarem ao basquete. Mas já teve campeonato que jogadora ficou grávida do namorado, eu já passei por tudo. Só que hoje a situação é extremamente profissional. Quem vai ficar grávida, se programa. Mas antes você tinha que vigiar, sair todo mundo junto, viajar no ônibus duas a duas, senão você perdia o controle. Naquela época se pedia para os pais para poder viajar, tinha que ir de casa em casa. Quando procurava uma jogadora, os pais levantavam quem era o Barbosa. Hoje aparecem meninas de 16 anos sozinhas na minha porta dizendo que vieram para jogar basquete. Embora eu tenha sido um moço normal, tive a juventude um pouco limitada na maneira de me portar. Era solteiro e novo, tinha 18, 20 anos, e andava com uma dúzia de meninas de 13, 14 pelas quais era responsável. Eu sempre separei muito bem as coisas e nunca me envolvi com nenhuma delas. Acho que esse é um dos fatores do meu sucesso. Eu falo na seleção, olhando no olho de cada uma, que não tenho nada a me envergonhar na minha vida, nada a me arrepender, pois meu histórico é limpo. É claro que quando se é o líder, o professor, acaba despertando alguma coisa. Mas sempre tratei de resolver para preservar a jogadora e me preservar. Foi sempre cada coisa no seu lugar e hoje, eu tenho idade para ser pai delas.

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