Os desencontros iniciais, com o falatório inexperiente dos diversos Ministros, podem, muito bem, ser considerados pecados veniais. O núcleo estratégico do governo, aos poucos, se consolida sob o comando de Antonio Palocci da Fazenda, de Henrique Meireles no Banco Central, do experiente Roberto Rodrigues da Agricultura e do empresário Fernando Furlan, no Desenolvimento Indústria e Comércio. Trabalham, cuidadosamente, dando continuidade às estratégias deixadas por Fernando Henrique e Malan. Os resultados são imediatos e esperados. Para muitos parece uma grande surpresa. O dólar despenca a um patamar razoável, tanto para favorecer exportações, quanto para esfriar a inflação. Promessas de um retorno acelerado dos investimentos internacionais são anunciadas pelos países centrais. Ao mesmo tempo, aos poucos, retornam as facilidades na obtenção dos financiamentos internacionais. Um cenário de confiança na política econômica vai se descortinando. Para alguns graças dos céus, para outros pecados mortais.
“O mundo dá suas voltas!â€, diz o povão há muito tempo. Quem haveria de imaginar que esta estratégia se imporia com tanta facilidade aos novos detentores do poder?
Os conservadores são os timoneiros que devem guiar o transatlântico Brasil na sua mudança de curso. São as metáforas usadas por Palocci. Outros, mais realistas e menos ingênuos, afirmam, categoricamente, que não havia alternativa: ou se seguia à estratégia Malan, ou a vaca ia para o brejo. O núcleo sério do governo recebeu, então, a responsabilidade de tocar o Brasil dentro de suas condições de possibilidades. À esquerda frenética do PT, restou a ilusão de continuar crendo que os atuais chefões desempenharão seus papéis de condutores da transição para se chegar, ao final, às mudanças prometidas, à saciedade, durante muitos anos ao povo brasileiro.
Como justificar as opções conservadoras? Agir intensamente na mídia. Manter, diante das grandes expectativas de mudança, a ilusão dos compromissos assumidos. Daí os factóides. Logo de início, a proposta do Fome Zero. Um confuso programa que ninguém sabe muito bem como dar curso, pelas suas ambições desmedidas e pela falta de recursos. Vai acabar por dar seqüência aos programas sociais iniciados na era Fernando Henrique. Foi produzido apenas para a mídia. Imediatamente, engrena-se, a visita às regiões pobres do nordeste. Assistimos à caravana ambígua de presidente e ministros perambulando, pela periferia de Terezina. Muitos discursos, como quando em campanha. Pedidos de toda ordem de populares, de prefeitos e governadores. Mais uma vez: presença na mídia. Protesto dos desamparados de Brasília que formam uma multidão. Surpresa nas mais de três mil favelas pelas grandes cidades do Brasil afora. O problema não é coerência, mas produção de noticiários. Pecados veniais para alguns, mortais para outros.
Segue-se o périplo sul americano. De um lado, proposta de nações amigas da Venezuela. De outro, discursos autoritários de Lula, propondo que o Brasil assuma, desde já, sua liderança inquestionável latino americana. Fala perigosa, muito perigosa! Brincadeira de mau gosto e mal informada, dando trela ao alucinado Chaves da Venezuela. Discursos de afirmação de hegemonia, que jamais vai agradar nossos vizinhos. Tudo para manter o governo na mídia. Caminhos oblíquos e mal traçados. Ou sonha Lula ser o Che Guevara dos novos tempos da democracia e da fraternidade? Que tal cuidar, com mais atenção de nossos próprios pecados?
Zé Dirceu fica no Brasil compondo as alianças necessárias para conquistar maioria no Congresso. Joga o jogo de sempre: â€œÉ dando que se recebeâ€. Velha lógica, subtraída do Evangelho, pela fera conservadora, o saudoso e simpático Robertão Cardoso Alves. Apostar no Sarney ou Renan Calheiros. Pecado mortal. Manobrar com o “pântanoâ€, a maioria silenciosa e fisiológica do Congresso. Pecadilhos veniais. Compor com lideranças e interesses organizados. Pecados muitas vezes mortais. Ninguém vai para o céu na política brasileira.
A benção!, companheiros... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)