Para qualquer governo ser bem sucedido são necessários, no mínimo, três bons estrategistas que ajam conjuntamente com o presidente da República, no núcleo central do poder. São eles: um xerife, um controller financeiro e um articulador habilidoso, do tipo Golbery do Couto e Silva, mais conhecido em sua época como o “bruxo do Planaltoâ€.
O xerife deve ser corajoso e não piscar nos duelos que terá de participar com representantes dos setores organizados da sociedade, principalmente aqueles ligados à produção, às finanças e ao trabalho.
Sobre tal tema, o maior desafio à capacidade do futuro xerife da economia será como lidar com a alta de juros, as pressões por remarcações de preços e as demandas sindicais pela eventual volta do “gatilho†salarial.
O controller financeiro deve estar atento ao mesmo tempo à arrecadação de impostos e aos gastos da União; além disso, precisará, sempre que possível, conciliar os interesses do mercado com os do País e os da sociedade.
Ao Golbery do futuro governo, caberá a tarefa, antes que termine a atual fase de “lua-de-mel†com a sociedade, de articular com urgência as forças políticas aliadas em prol dos avanços sociais e das reformas necessárias e inadiáveis.
Ao que tudo indica, o presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva, já dispõe desses colaboradores: o xerife e ex-banqueiro tucano, Henrique Meirelles, no Banco Central; o médico e controller financeiro, Antônio Palocci, no Ministério da Fazenda; e o chefe da Casa Civil da Presidência, e dublê de Golbery, José Dirceu, no Congresso Nacional.
Durante o civilizado período de transição, elogiado até por observadores estrangeiros, o presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) confidenciou a seu sucessor alguns preciosos conselhos e deve ter-lhe recomendado atenção especial para a leitura de “O Príncipeâ€, de Maquiavel.
Essa obra, um clássico da governabilidade, tem fascinado gerações de intelectuais mas, infelizmente, poucos conseguiram entender a essência desse genial autor da Renascença italiana. Tanto que o termo maquiavélico é hoje associado exclusivamente a atitudes amorais do tipo os fins justificam os meios. Exatamente o contrário do sentido original da palavra.
Ao longo dos últimos cinqüenta anos, apenas três homens públicos brasileiros captaram em sua totalidade a mensagem de Maquiavel: o ex-presidente Getúlio Vargas, não por acaso, inspirador do sugestivo apelido de “Pai dos Pobresâ€; o general Golbery do Couto e Silva e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.
Os obstáculos que Lula terá pela frente para chegar a tal meta, ou, pelo menos, aproximar-se o que for possível dela, não são desprezíveis: a ciranda inflacionária, alimentada por preços, juros e salários tendentes ao descontrole, é o principal deles, mas não o único. A pressão pela alta generalizada das tarifas administradas por monopólios públicos (gasolina, diesel e gás de cozinha) e privados (telefonia fixa e celular) também é preocupante.
E o que dizer das tarifas de energia elétrica, um setor que se tornou híbrido, meio estatal e meio privado, mas nem por isso mais eficiente?
Por sua vez, a agroindústria exportadora, responsável pela metade dos US$ 12 bilhões do superávit comercial obtido ao longo de 2002, vê-se diante do eterno dilema de atender ao atraente mercado externo (pelo fortalecimento da moeda americana) ou suprir o mercado interno , o qual não possui capacidade de compra equivalente ao dos padrões vigentes no Exterior.
Mas esses são apenas os problemas mais urgentes que deverão exigir toda a competência do controller Palocci e do xerife Meirelles. Há que se cuidar, também, de outras questões igualmente importantes para a governabilidade como, por exemplo, as reformas previdenciária, tributária, da legislação do trabalho (CLT) e, por último, mas não menos importante, a reforma política.
Todas elas deverão ser encaminhadas ao Congresso já na abertura do ano legislativo, em fevereiro. Para negociá-las, a habilidade de José Dirceu será posta à prova.
É por essas razões que o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, declarou recentemente, a respeito do governo Lula, que ele terá de perder um ano para ganhar três. Na verdade, o perder, nesta frase, deve ser entendido entre aspas porque ninguém perde nada se a estabilidade da moeda e a inflação sob controle, principais legados da era FHC, forem mantidas. Ao contrário. Só temos a ganhar com isso! (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil)