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O papel da escola pública


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O Sistema Mineiro de Avaliação mostrou que as escolas da Prefeitura de Belo Horizonte estão formando 30% de estudantes com desempenho crítico. O Sistema de Avaliação da Educação Básica e o Exame Nacional do Ensino Médio já haviam sinalizado nesta mesma direção. O Pisa, a Unesco, o Unicef e o Ibope, por sua vez, disseram que os alunos brasileiros são os piores em leitura, lideram a repetência na América Latina, estão entre os 74% de brasileiros analfabetos funcionais e justificam dezenas de programas paralelos, que se eternizaram tentando ensinar jovens e adultos a ler.

Se a queda na qualidade do ensino é mais acentuada na escola pública, é evidente que toda a sociedade deve voltar a discutir o papel desempenhado por uma escola financiada com os impostos que ela paga.

A alfabetização, etapa crucial da aprendizagem, foi transformada em calamidade pública. Os analfabetos foram colocados para ler e produzir textos e encorajados a formular hipóteses e a construir o próprio saber linguístico, como se isto respondesse a algum preceito científico consagrado.

A solução encontrada para disfarçar a incompetência instalada no ensino público foi imaginar um controvertido sistema de cotas que possa garantir, aos alunos que ele ‘formar’, o acesso às universidades públicas.

A qualidade do ensino fundamental reordena os países no mundo. Os modelos pedagógicos bem sucedidos se orientam por critérios objetivos de eficácia. O domínio da leitura e da escrita está na base de todo este processo e a pesquisa comparada orienta todas as ações na direção de minimizar as possibilidades de fracasso na alfabetização.

A habilidade de reconhecer e de manipular os sons do idioma e os fonemas em particular – consciência fonológica e consciência fonêmica – foi identificada, ainda no início da década de 90, como o atributo que melhor permite prever o sucesso na alfabetização. Um número crescente de pesquisadores e de governos – nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Canadá, notadamente – vêm aprofundando as suas pesquisas nesta direção e reforçando esta constatação. São unânimes em recomendar que a alfabetização comece pelo ensino destas habilidades e que prossiga observando a concepção fônica.

Os analfabetos aprendem inicialmente a identificar e a manipular os sons elementares do idioma (fonemas). Aprendem então as relações entre estes sons e as letras do alfabeto (grafemas). Entendem as palavras escritas como seqüências de letras que correspondem a combinações de sons que formam as palavras faladas. Desenvolvem a mecânica e a compreensão com a leitura oral guiada. As habilidades da escrita são desenvolvidas em paralelo, com as mesmas premissas.

Cuba, França, Portugal, Chile, Canadá, Austrália, Itália, Inglaterra, Escócia, Irlanda, Estados Unidos, Finlândia, Alemanha, Israel, Suécia, Dinamarca, Noruega e Bélgica são países que alfabetizam desta forma e que se destacam mundialmente, pela qualidade do ensino fundamental que a sua pedagogia produz.

Em todos estes países, as crianças medianamente dotadas aprendem a ler e a escrever desta maneira com um ano de instrução. Passam à série seguinte porque demonstram, em níveis razoáveis, que são capazes de ler e escrever com segurança, fluência e compreensão; coordenando os indicadores fônicos, gráficos, sintáticos e contextuais, para guiar e corrigir seus erros.

A sociedade é que deve definir o papel atribuído a uma escola financiada com os impostos que paga. A sociedade e que deve definir se a escola pública existe para promover igualdade de oportunidades ou existe para promover analfabetos. (O autor, Silo Meireles, é diretor da Editora Primeira Impressão, do RJ)

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